Quando os tempos rastearem o dia, quando os dias forem todos iguais, quando todos forem poucos e os poucos se sentirem sozinhos, a poesia. Nela, o encontro com o espanto, o alento da convicção, a certeza absoluta do que não se sabe e o saber escondido no sorriso que guarda a memória de passos a levitar o chão. É nesse instante que se é, que se existe. Onde nos vemos livres, em voos redondos que rasgam o livre azul dos céus. O poema não só ensina a cair como ensina o mistério da existência, privilégio de provocadores atrevidos de explosões que incendeiam o ser. Assim nascem os universos.
Reencontrar a criança que ficou sentada nas escadas que a bicicleta contava, à espera do tempo em que os joelhos cicatrizassem. Tirar as mãos do guiador e sentir o frio na barriga ao atravessar os declives de ruas sem carros. Vestir-se de liberdade dos pés à cabeça. Testar os limites e perceber que podem ser ultrapassados. Sentir o verão, jogar à bola debaixo de chuva, pisar o manto de folhas secas e apanhar as mais coloridas, tatear a neve e sentir o perfume das flores.
Não poderia existir poesia sem o assombro do amor, descontrolo feliz da razão. Amar é já ser poema, mesmo nunca tendo lido poesia. Talvez não seja possível escrever poesia sem se ter amado até à loucura. E é por isso que o poema salva. Porque é segredo que nos desvenda sem sabermos. O mergulho mais profundo da humanidade. Lugar íntimo que comunga intimidades. Espaço que nos prende e liberta. Raio-X ao inanimado que ganha vidas. Ânimo de qualquer dor. Reconhecimento do inesperado.
Quando já não se sabe quem é, a poesia. No silêncio do olhar para dentro. No ritmo da rima que pode não rimar. Nas palavras que falam sempre de nós, que se eternizam até as encontrarmos. O poema espera-nos a vida inteira e não há sentimento que não se desenhe em palavras. É a magia da dança do que trazemos dentro.
O amor ensina-nos a poesia e a poesia ensina-nos quem somos, numa descoberta surpreendente, que tanto inquieta, quanto conforta.
Por isso, quando alguém morre, morre também um poema. Resta-nos continuar a escrever poesia, para que os poemas continuem a ensinar a queda, a ensinar a dor e a despedida, a saudade e a esperança, o renascer da vida, a luta e a bonança.
Quando nada mais houver, a poesia. Poema absoluto da liberdade.


