As eleições autárquicas já lá vão e, mesmo antes das tomadas de posse, devíamos recuperar algumas das propostas, pelo menos para refletir sobre elas. E, ao pensarmos no assunto, seguramente encontramos ideias interessantes e válidas e sugestões estapafúrdias, projetos exequíveis e relevantes e planos absurdos. Faz parte do âmbito eleitoral, um universo em que se pode prometer tudo e o seu contrário…
Porém, a maioria das candidaturas apresentou generalidades, demagogia e uma ou outra ideia digna desse nome.
Se eu fosse candidato, que não sou, nem serei, provavelmente apresentaria um conjunto similar de banalidades e ideias estapafúrdias, como todos fazem. Se fosse na Guarda, diria, como todos, que iria construir um multiusos, dar vida ao centro histórico, transformar a Praça Velha, atrair investidores, criar emprego, apoiar empresas, apostar no digital, contruir casas para todos, entre outras… O complicado é dizer como e de que forma se pode fazer tudo o que se promete…
Se eu pudesse mudar o paradigma e mudar de políticas públicas, além das banalidades comuns a todos os programas, apostava em propostas sobre os que me parecem ser os principais problemas dos nossos concelhos: a desertificação do interior, o envelhecimento populacional e a falta de competitividade da economia. Para Miguel Sousa Tavares, a desertificação do interior «é o resultado trágico da década de governação cavaquista: a agricultura vendida a Bruxelas por tuta-e-meia, a consequente agonia do mundo rural, os mil quilómetros de ferrovia encerrados, os serviços do Estado desaparecidos do interior» – um problema que vai demorar décadas a resolver. E só há um caminho para o enfrentar, que todos os candidatos deveriam ter incluído nos seus programas: pugnar, defender, exigir ao Estado a reversão de decisões que mataram a vida no interior. Como tantas vezes aqui defendi, necessitamos de um “plano Marshall”: uma política fiscal amiga dos territórios de baixa densidade, com um desconto de 50% em sede de IRS para todos os residentes e novos residentes; 0% de IRC às empresas sedeadas ou que se estabeleçam no interior; centros de saúde e tribunais em todos os concelhos; programas a fundo perdido para recuperar os milhares de casas devolutas e a cair nas nossas vilas e aldeias; voltar a haver comboios em todas as linhas; pagar às pessoas para viveram nas aldeias, para terem cabras, hortas e ocuparem o território e cuidarem da floresta que arde todos os anos; investir em cultura e levar animação cultural ao mundo rural, pois só assim as pessoas podem ficar nas aldeias e lugares… E apostar nas crianças, reabrir escolas (o fecho generalizado das escolas matou o mundo rural); nos jovens e nos que trabalham e são o futuro – mais creches e menos centros de dia – os pais não precisam de mais licenças de parentalidade, precisam de trabalho e boas creches e escolas para deixarem os filhos e poderem ir trabalhar. Sobre a competitividade económica, por falta de espaço, direi apenas que devemos ser sensíveis à valorização dos recursos naturais e as autarquias devem apostar mais na inovação e no digital. O futuro é já.
As eleições foram uma “festa da democracia”, mas foi também um período importante de reflexão sobre o presente e o nosso futuro coletivo, com participação cívica e política, com entusiasmo e civilidade, e com abnegação das muitas mulheres e homens que deram o melhor de si na defesa das suas ideias e dos seus candidatos: estão todos de parabéns pela disponibilidade e entrega à causa pública!
Editorial de Luís Baptista-Martins: Para além das promessas eleitorais…
«necessitamos de um “plano Marshall”: uma política fiscal amiga dos territórios de baixa densidade, com um desconto de 50% em sede de IRS para todos os residentes e novos residentes; 0% de IRC às empresas sedeadas ou que se estabeleçam no interior; centros de saúde e tribunais em todos os concelhos; programas a fundo perdido para recuperar os milhares de casas devolutas e a cair nas nossas vilas e aldeias»


