Estávamos em 1915, em Portugal viviam-se tempos conturbados em termos políticos, religiosos e sociais, com a jovem República a procurar afirmação. Os atentados e governos sucediam-se, e a família e as tradições eram alvo de ataque permanente por parte dos poderes instituídos. Um dos grandes alvos era a religião católica, praticada por quase cem por cento dos portugueses e que menos de um por cento queria banir. Em Vilar Maior, uma aldeia do concelho do Sabugal, vai passar-se um caso interessante, quase caricato, mas representativo, daqueles tempos, e da força das mulheres.
Vilar Maior

Vilar Maior.
Terra cheia de história, mas quase esquecida das suas ancestrais grandezas, pois tinha passado de vila e concelho, com alfândega, a aldeia. Naqueles tempos que se seguiram à implantação da República as pessoas de maior relevo eram o pároco Artur de Oliveira, os lavradores Alexandre Araújo e Francisco Esperança, e António Gata, que tinha a seu cargo o posto de registo civil, recentemente criado, e os correios. O poder político estava nas mãos do presidente e do vice-presidente da Junta de Paróquia.
Uma «capitosa borracheira»
Em 1910, o bispo da Guarda, D. Manuel Vieira de Matos, decidiu substituir o pároco da aldeia contra a vontade do presidente da Junta de Paróquia. Dizia-se, à boca cheia, que presidente da Junta e pároco teriam interesses particulares. É nomeado novo pároco e o presidente da Junta arregimenta um grupo de amigos, e vão à Guarda falar com o bispo, mas não sem antes beberem uns bons e largos copitos de vinho. O bispo, depois de os ver em tão «capitosa borracheira», despediu-os em silêncio e paz, mas sem terem atingido os seus objetivos.

Vilar Maior, grupo de raparigas. Autor desconhecido.
Mas é claro que a afronta não foi esquecida, e por isso quando o novo pároco, o padre Fonseca, ainda um jovem, chega à aldeia é recebido pela garotada, previamente ensaiada, armada de latas e ferros velhos, ao mesmo tempo que os sinos tocavam a arrebate. Nestas circunstâncias a prudência aconselhou que fosse nomeado um novo pároco, mais experiente, o padre Júlio Matias. Foi uma escolha acertada!
Dois carros de bois dentro da igreja
Junto da igreja paroquial havia uma velha casa, chamada casa da fábrica, que, em 1911, tinha sido consumida por um incêndio. A Junta de Paróquia decidiu reconstruí-la e foram encomendados os materiais necessários. Vieram dois carros de bois com telhas da Malhada Sorda, mas em vez de serem arrecadadas em palheiros que por ali havia, colocaram-nas dentro da igreja com o objetivo de confrontar e arreliar o pároco. Intrigado, pelas cinco horas da tarde, o padre Matias resolve espreitar e ver o que estava a acontecer. Ficou estarrecido! As portas da igreja tinham sido escancaradas e não eram apenas as telhas que estavam dentro da igreja, eram os próprios carros de bois. Tentou apelar à razão, mas nada. Foi ameaçado e insultado no interior do próprio templo.
Procura o regedor, que não encontra, e manda tocar os sinos e mudar o Santíssimo para a pequena igreja da Misericórdia. As mulheres acorrem em força e, num trabalho hercúleo, conseguem retirar as telhas da igreja. A igreja, que pouco depois irá receber os altares da igreja do convento de S. Francisco, da Guarda, de acordo com as novas leis republicanas, era pertença da Junta de Paroquia, ou seja, da Junta de Freguesia, como se passou a designar a partir de 1916.
Por isso, se o padre mandasse retirar os carros de bois processavam-no «por mandar retirar uma coisa nossa de um lugar onde só nós mandamos». Foi isso que aconteceu!

Vilar Maior, dia de procissão.
No seguimento do processo político-judicial que se seguiu, o pároco foi desterrado por um ano do distrito da Guarda, tendo ido residir para Belmonte. Entre várias acusações, sobressaía ter realizado uma procissão depois do sol-posto, de recusar acompanhar o cadáver de uma filha do presidente da Comissão de Paroquia e de «fazer um casamento à mão esquerda…»!
«As indomadas»
Terminado o exílio, o padre Matias regressou a Vilar Maior, onde, no processo de luta e afirmação, ocorreu um facto bem representativo do valor das mulheres daquele povo.
No dia 15 de agosto, prestes a fazer 110 anos, celebrou-se a festa de S. Sebastião. No final da missa devia realizar-se a procissão, como habitualmente, mas, de acordo com as leis republicanas, o administrador do concelho tinha que dar autorização para a sua realização. Os mordomos não deixaram de a solicitar, só que, se o administrador não recusou pôs como condição que fosse o pároco a pedir a autorização, e por escrito. Este, que já experimentara «o rigor de três cadeias», entendeu que o não devia fazer, alegando que a festa era da responsabilidade dos mordomos e não dele.

Igreja da Misericórdia após a explosão.
A revolta do povo era grande e no interior da igreja o padre, antevendo as sanções das autoridades, que já se encontravam a caminho, exortou os fregueses a resignar-se e retirar para suas casas em paz e boa ordem, pois por causa de uma procissão não valia a pena haver desacatos. Mas as mulheres não concordaram, e assim que os padres saíram da igreja, pegaram nos andores e desfilaram pelas ruas do costume.
Os homens sentiram-se envergonhados e pegaram nos estandartes, como sempre tinham feito, e mantiveram-se por perto, prontos a defender as suas esposas e filhas. As forças da ordem nada fizeram.
O caso teve repercussões nacionais e o jornal “O Dia”, sugestivamente, tinha como título: «Se só elas mandassem, que volta levaria tudo isto!»
A tragédia de Vilar Maior

Mulher da Beira (cerca 1913)
Estávamos em setembro de 1971, no dia 5, um domingo, havia festa rija na aldeia, dedicada ao Sr. dos Aflitos. A banda de Loriga abrilhantava a festa e os foguetes iam rebentando no ar. De repente, quando as pessoas se dirigiam à igreja, assistir à missa, um foguete rebenta mal e incendeia os que estavam a ser preparados. Esta explosão faz detonar todos os que se encontravam depositados na Casa do Sino, um anexo da Igreja da Misericórdia. A bela e antiga igreja ficou completamente destruída, e muitas as casas que ficaram danificadas, com telhados destruídos e vidros partidos. Mas, pior, seis pessoas ficaram completamente desfeitas, e sete feridas com gravidade. Mas foram muitas as que sofreram ferimentos mais ligeiros, muitas delas, quando sem saber as causas das explosões, fugiram, atropelando-se, no largo da aldeia. Dado o alarme, os socorros vieram do Sabugal, Guarda, Penamacor, Pinhel e Covilhã e ainda um destacamento do Regimento de Infantaria 12, da Guarda. Mas, como relata uma emocionada testemunha:
«Parece que ainda sinto o cheiro da pólvora no ar, os gritos das pessoas, a azáfama em acudir aos feridos. Tenho a recordação dos pedaços dos corpos no chão e nos telhados, as pessoas a pedir lençóis para tapar e recolher os pedaços que iam sendo encontrados. Recordo-me ainda da missa do funeral, os caixões perfilados junto do altar e o sangue a correr pelo chão da Igreja» – in “VILAR MAIOR, minha terra, minha gente”
(no site https://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/)
* Investigador da história local e regional


