Os bons vi sempre passar

Escrito por Diana Santos

Nasceram e passaram pela Guarda vultos de incontestável relevância: poetas, escritores, pensadores, professores, médicos, artistas, cientistas, empreendedores, entre muitos outros. Podemos não ter grandes infraestruturas, oportunidades ou condições, mas não nos podemos queixar da falta de massa que move o mundo, a massa crítica. O nosso grande e pesado problema é a incapacidade de reter esse talento e de o deixar partir para outros voos.
Em dias de desalento recorro à positividade de Manuel António Pina para acreditar que, apesar de já ser tarde, ainda estamos a tempo de alterar o que nos tem doído e puxado para o negrume da noite. Realisticamente, a consciência da dificuldade desta luta inglória de procurar, por entre os escombros, quem, com vontade de construção, ainda não tenha migrado. Passa o tempo, a idade e a crença de que as nossas mãos têm o poder para tudo mudar. Sozinhos, somos limitados e precisamos do outro, de muitos outros para erguer uma casa.
Os sonhos e a boa vontade de os realizar não são suficientes por si só, menos ainda quando há matadores a céu aberto, avessos a qualquer tentativa de mudança, diferença, destaque ou confronto.
A Guarda precisa dos melhores, dos raros que resistem, dos tantos que saíram, dos que possam vir ajudar e dos que ainda estão por chegar. Só assim se poderá criar uma cidade e uma comunidade preparada para o futuro.
Precisamos, em primeiro lugar, de encontrar a esperança do possível, o vislumbre da luz, a coragem que só a loucura dos ousados permite. Esta será a primeira célula do sentimento de pertença que há muito deixámos de ter e que temos que fazer renascer.
Este é um desafio tão difícil que chega a parecer impossível e conduz à desistência dos que poderiam transformar o amanhã deste lugar. É legítimo desistir, é, até, justo, desistir, pela ingratidão e ação maquiavélica daqueles que preferem uma cidade em direção à subserviência e à aniquilação. É incompreensível a conclusão de que o bom trabalho é mal visto e tem que passar por crivos exclusivamente apertados pela inveja, mesquinhez e malvadez de alguns. Assim, torna-se difícil dar a quem não quer receber e, por isso, repito: a desistência é legítima e até justa.
Ganham as outras cidades e países que acolhem o talento dos guardenses que outros guardenses rejeitaram com propósito firme.
Contudo, ainda acredito nos bons, porque só os bons podem construir um futuro melhor para todos e porque só os bons trazem no coração a força da adversidade que quebra as barreiras da ignorância.
Contra os que querem o silêncio, a opacidade, o uso do poder para mais poder gerar, que venham os bons, porque ainda os temos.
Havemos de salvar a Guarda e de lhe dar o F do futuro digno que merece. Que esta esperança palpite e desperte o rumo certo. Que os bons nunca desistam.

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Diana Santos

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