As casas de pasto, as pensões e albergarias não garantiam qualidade e instalações condignas para quem era mais exigente ou endinheirado. As elites reivindicavam uma albergaria de categoria, um hotel superior.
Seria nos alvores do Estado Novo que a pretensão ganhou forma. O regime autoritário, nacionalista e corporativista que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974 promoveu a instalação de hotéis em oito cidades portuguesas. O “Concurso do Hotel Modelo” foi lançado em 1933 na revista “Notícias Ilustradas”, com a aprovação do Comissariado de Turismo, uma corporação decisiva no programa de economia da “jovem” ditadura. Oito arquitetos foram então convidados a desenhar um hotel para cada uma das oito províncias da Metrópole onde não havia uma unidade hoteleira de qualidade, todos debaixo do controle do arquiteto Raúl Lino. Se a base para a conceção arquitetónica era o modelo “Casa Portuguesa” (ou “estilo português”), a Guarda seria a cidade eleita na província da Beira Alta.
A Comissão de Iniciativa e Turismo da Guarda escolheu então um dos projetos, do arquiteto Manuel Castelo Branco, e, em julho de 1933, segundo Dulce Helena Pires Borges (in “A Guarda Formosa na Primeira Metade do Sex. XX”) foi feita a apresentação pública do projeto nas montras dos então famosos “Armazéns do Chiado”. A Câmara Municipal contraiu então um primeiro empréstimo junto da Caixa Económica da Guarda e depois outro à Caixa Geral de Depósitos para financiar a construção do hotel no Campo da Boavista, uma zona de expansão a leste da cidade muralhada. Mas a Comissão do Fundo de Desemprego, responsável por 45 por cento do financiamento necessário, não gostou do projeto e impôs um novo concebido por Vasco Regaleira, apresentado publicamente nas montras da loja Conde & Gião, na Rua do Comércio, a 13 de maio de 1934. As obras, que já tinham sido iniciadas em janeiro de 1934 e paradas perante as indecisões do projeto, avançaram finalmente a bom ritmo, mas, ainda assim, arrastar-se-iam por uns longos 13 anos – o Hotel só seria inaugurado, com pompa e circunstância, a 6 de julho de 1947. O imóvel de três pisos, com diversas valências no piso térreo, como a receção, sala de refeições, zona de lazer, café e serviços e quartos e suites nos pisos superiores. O interior, requintado e elegante, contrastava com o exterior austero com telha caleira e cantaria de pico fino (granito trabalhado) habitual nos solares senhoriais da Beira Alta. O Hotel de Turismo da Guarda tornar-se-á num dos melhores hotéis do género no país.
O turismo era já nos anos 40 visto como a galinha dos ovos de ouro para o futuro da Guarda e, até por isso, o município fazia grande esforço na promoção turística da cidade e na assistência social para retirar os pedintes da rua – ao então presidente da Câmara, o coronel Orlindo de Carvalho, é atribuída a frase “turismo e mendicidade são incompatíveis”.
O Hotel de Turismo da Guarda passou a ser a sala de visitas da cidade e o local de referência da vida social e económica do distrito. A exploração foi inicialmente entregue a um particular, Dona Maria Augusta Filipe, por a autarquia não ter vocação para “o negócio”, e a partir de 1956 foi adjudicada a Luís Augusto Ribeiro da Silva.
A propriedade manteve-se da autarquia e, em 1958, o mesmo Vasco Regaleira terá concebido um projeto para ampliação da unidade hoteleira. Clássico e urbano, o Hotel de Turismo da Guarda continuou a ser o local de referência da hotelaria regional durante anos.
Em 1978 o Hotel foi concessionado à empresa “Transcontinental” com o objetivo de lhe dar mais visibilidade nacional e uma gestão profissional, própria de quem geria hotéis nomeadamente em Lisboa – em surdina, dizia-se que quando havia lucros eram para a concessionária e a Câmara ficava com os prejuízos. Sem surpresa, a concessão acabou mal e, depois de muitos prejuízos assumidos pela autarquia, em novembro de 2003 a concessão foi entregue por concurso público à “Predial das Termas de S. Pedro do Sul”.
A 29 de maio de 2005 é elaborado o despacho de abertura do processo de classificação pelo presidente do IPPAR – Instituto Português do Património Arquitetónico.
A 10 de outubro de 2007, o município, através da empresa municipal “Sociedade Hotel de Turismo”, após rescisão por mútuo acordo do contrato de concessão com a “Predial das Termas de S. Pedro do Sul”, assume a exploração do Hotel. Com esta decisão a autarquia avançou também com um plano de remodelação do imóvel, apresentando uma candidatura de 9 milhões de euros ao SIVETUR. A candidatura foi aprovada, mas a pretensão de requalificar o Hotel de Turismo como unidade hoteleira de 4 estrelas nunca saiu do papel.
O Hotel de Turismo da Guarda fechou as portas a 31 de outubro de 2010, tinha então uma dúzia de trabalhadores a quem já não eram pagos os vencimentos por falta de dinheiro. A autarquia, presidida por Joaquim Valente, negociou e vendeu depois o Hotel ao Institutro de Turismo de Portugal (Estado) por 3,5 milhões de euros, com a promessa de o renovar e ali instalar uma Escola de Hotelaria e Turismo, vocacionada para a Saúde e Bem-Estar – era o tempo do do bioclimatismo e do “ar-da-Guarda”. O dinheiro permitiu pagar aos trabalhadores, os impostos e aos fornecedores, o resto diluiu-se rapidamente na tesouraria municipal.
À data de encerramento a unidade hoteleira de 3 estrelas disponibilizava 98 quartos e 2 suites, restaurante, bar, sala de conferencias, piscina e discoteca (encerrada há alguns anos), além de um cinema (“Cine-estúdio Oppidana”) que funcionou nas traseiras do Hotel de 1989 a 2006.
Desde 2010, foram anos de expetativa e muitas promessas de reabertura do icónico Hotel de Turismo da Guarda. Da venda a privados aos apoios de programas europeus, do Revive à falência da MRG, passando pela integração na rede de Pousadas de Portugal, “conquistada” por Ana Mendes Godinho, através da Enatur e Grupo Pestana. Mas nada, pelo meio, o imóvel foi-se deteriorando, teve um incêndio e continua entaipado enquanto apodrece no centro da cidade.
Mas as promessas políticas não pararam. Durante 15 anos, todas as candidaturas e partidos incluíram promessas ambiciosas para o hotel. Foi assim que, e já de forma descrente, a Guarda recebeu na passada sexta-feira o secretário de Estado do Turismo. Pedro Machado apresentou-se no que resta da sala de atos do Hotel, por entre memórias e as ruínas do maior símbolo do turismo da cidade, para anunciar (e apadrinhar) o lançamento de um novo concurso público para a recuperação e arrendamento com opção de compra do Hotel de Turismo da Guarda – a partir de 1 de abril, o “dia das mentiras”, irão contar «18 a 24 meses», disse-se, para algum operador, «que há de aparecer», para salvar o hotel de Turismo da Guarda. A Guarda fica à espera, mais uma vez, antes que o icónico imóvel do Hotel de Turismo comece a cair.
Hotel de Turismo da Guarda, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita
A ideia de que a Guarda devia ter um grande hotel remonta aos primeiros anos do séc. XX. Então, a saúde era a principal razão para os forasteiros demandarem a cidade e terem necessidade de dormir na Guarda.




