Opinião de Romeu Curto: Serra da Estrela: manual de inverno para amar a montanha sem a desgastar

Escrito por Romeu Curto

Os invernos continuam a levar carros à Torre, mas a neve já não chega como dantes. Os dados são claros. Nas Penhas Douradas (1380 m), a série do IPMA indica uma redução dos dias com solo coberto de neve de 53,3/ano (1951–60) para 28,0/ano (2011–20), com um máximo em 1971–80 (68,6/ano) e decréscimo persistente desde então. A época encurtou em ambas as extremidades: inicia mais tarde, termina mais cedo; dezembro e março perderam expressão, fevereiro concentra a variabilidade. No planalto da Torre, a reconstituição de Carla Mora e Gonçalo Vieira, combinando observações, MODIS e reanálises, aponta para uma descida da duração média da cobertura de neve de cerca de 170 dias/ano no final do século XIX para aproximadamente 120 dias/ano na última década. O sinal é inequívoco: menos dias e maior irregularidade.

Projetando o fim do século (2080–2100), os cenários climáticos divergem no grau, não no sentido: sob trajectórias de emissões elevadas, a neve sazonal poderá tornar-se residual; em cenários intermédios, a ordem de grandeza aproxima-se de duas dezenas de dias; no mais ambicioso, estabiliza em torno de 60 dias/ano, ainda assim cerca de metade dos valores atuais. Não é “fim imediato”, é rarefação estrutural e concentração temporal.

A gestão do uso tem de acompanhar esta realidade. Não se trata de “acabar com o ski”, que permanece relevante quando a base existe; trata-se de aceitar anos magros e anos generosos e organizar a oferta em conformidade. Quando há base contínua, abrem-se pistas com critérios de segurança e conservação; quando não há, ganham centralidade atividades robustas à escassez de neve (raquetes, leitura de terreno, segurança invernal, programas de interpretação ambiental e histórica). Diversificar o inverno é reduzir risco operacional e pressão ecológica.

O acesso é o outro eixo. A capacidade ecológica do cimo da serra é inferior ao volume automóvel que hoje lhe chega. A solução não é exótica, é prática: parques dissuasores em cotas mais baixas, transporte sazonal dedicado até ao maciço central, janelas horárias e limites de permanência nos períodos de maior afluência. Em paralelo, é indispensável qualificar as “portas de entrada” em Manteigas, Seia, Covilhã, Gouveia, Celorico e Belmonte, com centros de acolhimento, informação em tempo real, trilhos bem marcados e serviços locais que funcionem com e sem neve. Assim, a irregularidade climática deixa de significar caos e passa a significar programação.

Há ainda a dimensão institucional. A concessão de exploração turística acima dos 800 m deve ser governada como compromisso público: objetivos mensuráveis (mobilidade, resíduos, restauro ecológico, educação), avaliação independente com publicação de resultados, subconcessões por concurso com critérios claros e prazos finitos, mecanismos de bonificação e penalização conforme desempenho. Alinhar exploração com conservação não é obstáculo ao desenvolvimento: é a sua condição de possibilidade.

Finalmente, o básico que falta cumprir: gestão de resíduos (o que se leva, traz-se de volta), sinalética que explique encerramentos temporários de trilhos e zonas sensíveis, literacia pública mínima sobre três números simples: de 53 passará a 28 dias/ano nas Penhas; de 170 passará a 120 no planalto; intervalos plausíveis de dias no fim do século. Informação de qualidade induz comportamentos de qualidade.

A serra não precisa de menos pessoas; precisa de melhor comportamento e melhor governo. Continuaremos a subir: com ski quando houver inverno para isso, com botas quando não houver; com menos carros e mais montanha; com contratos escrutináveis e lixo que não fica à espera do voluntário seguinte. A Estrela mudou e continuará a mudar. O que está ao nosso alcance é escolher se a mudança se faz por inércia e saturação ou por planeamento e cuidado.

Docs de apoio:

Mora, C., & Vieira, G. (2025). The Vanishing Snow Cover in Serra da Estrela: Leveraging Scarce Data for Diagnostics and Future Scenarios. Finisterra, LX(129), e37506
Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Dados observacionais das Penhas Douradas (temperatura, precipitação e neve, 1883–2020). (Dados citados e tratados em Mora & Vieira, 2025.)
Viveiro, J. (2023, 16 de agosto). Serra da Estrela: a torre do nosso descontentamento. PÚBLICO. https://www.publico.pt/2023/08/16/azul/opiniao/serra-estrela-torre-descontentamento-2059179
Autoridade da Concorrência (AdC). (2020, julho). Recomendação no âmbito da concessão da exploração da atividade turística e desportiva na Serra da Estrela. Lisboa: AdC.

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dezembro, 2025 Romeu Curto

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