Vêm aí as autárquicas. Os diferentes programas eleitorais vão consagrar por escrito os compromissos dos candidatos para os próximos quatro anos. De todos os candidatos e não apenas dos vencedores. São, por isso, documentos de um valor inestimável.
Um programa eleitoral sólido é aquele que alcança um equilíbrio entre as prioridades para o concelho e as prioridades dos seus munícipes. Atender às prioridades dos munícipes é relativamente simples. Isto porque, regra geral, o que as pessoas mais desejam é ver a sua qualidade de vida melhorada.
No concelho da Guarda, essa melhoria passa por ter acesso a espaços de lazer e de prática desportiva bem cuidados, a uma programação cultural regular e diversificada e a atividades de entretenimento variadas. Os guardenses também querem ver afirmada a capitalidade regional da Guarda e sentir que existem condições para que as gerações mais novas possam construir aqui o seu futuro.
As prioridades para o concelho e as prioridades dos munícipes podem nem sempre coincidir. Contudo, há um ponto em que convergem com naturalidade: a resolução dos problemas mais urgentes.
Ora, o concelho da Guarda apresenta uma taxa de desemprego residual e os casos de criminalidade violenta são extremamente raros. Não há congestionamento de trânsito nas horas de ponta nem constrangimentos com o sistema de transportes públicos ou com a recolha do lixo. Resta-nos, por isso, um problema conjuntural e dois problemas estruturais. O primeiro é o acesso à habitação e afeta todo o país. Os problemas que se arrastam há décadas, e que se fazem sentir por todo o interior, são a desertificação e a falta de competitividade.
Os programas eleitorais são o espaço certo para se perceber se as candidaturas têm soluções viáveis para enfrentar estes desafios ou se preferem prolongar a espera por uma solução milagrosa vinda de Lisboa ou de Bruxelas. O mesmo se aplica a muitos outros problemas, incluindo a prevenção e o combate aos incêndios e a melhoria dos serviços de saúde.
Nas últimas três décadas, o reforço da concorrência internacional provocou um processo de deslocalização da indústria para fora da Europa. O Velho Continente perdeu também força ao nível da investigação e da inovação (e, por consequência, da competitividade). Durante o mesmo período, Portugal viu as suas assimetrias territoriais agravarem-se profundamente, com o interior a revelar-se incapaz de reter e captar população jovem e de atrair investimento.
Foi precisamente ao longo dessas últimas três décadas que, a partir da Guarda, uma empresa logrou contrariar esse declínio e projetar-se para o mundo: a Coficab.
As duas unidades industriais da Coficab sediadas na Guarda produzem cabos elétricos para as principais marcas de automóveis do mundo e estão na linha da frente ao nível da investigação em cabos para mobilidade elétrica e condução autónoma. No total, empregam cerca de mil pessoas, incluindo muitos recursos humanos altamente qualificados e provenientes de outras localidades do país.
O grande protagonista desta história de sucesso ímpar é João Cardoso, que, enquanto diretor-geral da Coficab, soube remar contra as tendências adversas da desindustrialização da Europa, da perda de capacidade de inovação e da desertificação do interior. Tendo cessado recentemente essas funções, alguém com o seu percurso deveria ter uma passadeira estendida para ter um papel ativo na vida política. Mas, pelos vistos, o nosso sistema partidário ainda não atingiu esse ponto de maturação.
Enquanto esperamos, há um procedimento que se impõe: a atribuição do nome do engenheiro João Cardoso a um lugar nobre da cidade. João Cardoso fez tanto pela Guarda e pela região que o seu nome merece ficar gravado, de forma solene, no mapa urbano da Guarda e na memória dos guardenses.
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