Opinião de Fidélia Pissarra: Em 2026 talvez só a esperança sobreviva

Escrito por Fidélia Pissarra

Aparentemente, já não há cadeiras onde alguém se queira sentar a ler um jornal, a conversar e a pensar no que este mundo poderia ser e não é. O que faz com que cada vez menos gente consiga pensar sequer em si. Nestes novos modos de vida, de consumir e existir, a felicidade parece muito menos importante do que aquilo que a fazíamos. Por falta de leitores, os jornais tendem a desaparecer, as conversas a silenciar e os pensamentos a ser enformados por competentes treinadores. Os que ainda pretendem presumir de querer conhecer o mundo rejeitam a estupidez de acreditar por temer ser manipulados. Mas os que preferem acreditar são cada vez mais. Não que hoje haja mais loucos do que há meia dúzia de anos, não haverá. Haverá é cada vez mais quem se disponibilize a ser treinado para acreditar. Preferem assim.
Não será, por isso, difícil de compreender que haja cada vez mais quem acredite que, baixando impostos, recusar o pacto verde, vetar a imigração e suprimir os gastos públicos com políticas de igualdade lhes melhorará a vida. Pois, por pura preguiça e muita vontade de agradar aos treinadores, preferem ignorar os dados do Eurostat que nos dão conta de 9% dos trabalhadores portugueses estarem em risco de pobreza e que a situação seria ainda pior se não fossem os apoios estatais para diminuir essa taxa que, de acordo com o Observatório das Desigualdades, saltaria de 16,6% para 40,3%. Também por preguiça, preferem ignorar que, segundo o Observatório Fiscal da UE, o nosso país tem 40% do PIB parqueado em paraísos fiscais. Por preguiça, ainda, tendem a deixar que os treinem na convicção de que os seus problemas radicam nos beneficiários das subvenções estatais para combate à pobreza, tal como radicam nos imigrantes, nas políticas ambientais e nas de igualdade de género. Infelizmente, o mais caricato disto tudo é a preguiça de pensar, de tentar conhecer e perceber, estar a alastrar, precisamente, nos que mais sofrerão com as políticas em que os têm treinado a confiar.
Se, em vez de acreditar, tentassem conhecer e pensar, talvez chegassem à conclusão que os poucos euros poupados nos impostos nunca lhes servirão de nada, em caso de doença, quando o SNS desaparecer por falta de financiamento público. Que os poucos euros que lhe deixam no bolso não chegam para formar um filho. Que a taxa de pobreza cresceria e a de exclusão também. Se tentassem conhecer e pensar, concluiriam que pagar menos pelo trabalho das mulheres, retirar-lhes direitos e não prevenir a violência de género é discriminatório e sai muito mais caro ao país do que aquilo que conseguem imaginar. Concluiriam que, por só termos este planeta para viver, a emergência climática é real e que sem imigrantes a nossa economia e Estado social deixam de ser viáveis.
Claro que, de tão enfermo por tanto “se” e “talvez”, qualquer futuro se nos afigurará pouco risonho, mas, como a esperança é sempre a última a morrer, restar-nos-á esperar que, a bem da democracia e da nossa felicidade, o novo ano nos traga, pelo menos, outros ímpetos políticos. Bem diferentes destes que, pela mão dos antipatriotas, nos têm assolado.

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Fidélia Pissarra

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