Medalhas de cortiça queimada

Escrito por Fidélia Pissarra

Embora não saiba muito bem porquê, tenho cá para mim que o “prémio” de empregado do mês, do ano, da década, do século é moda para ter começado lá para os Estados Unidos da América. Entre aspas, porque o nome do escolhido pregado no placard da sala de reuniões nem sequer chega a ser nada que dê para levar para casa. Nunca louvores e registos temporários de parede mataram a fome a ninguém, frise-se. Daí nunca ter conseguido entender a sua importância e propagação ao resto do mundo.
O certo é que ele há gente que se esfalfa por tal reconhecimento, o que não pode deixar de muito me admirar. O que levará alguém a trabalhar para além da hora, a ir além das suas competências e funções, só por um galhardete personalizado? Não entendo. Andaram uns a lutar por condições justas de trabalho para andarem outros a sabotar as regras em nome do reconhecimento pessoal por parte do patrão? É que se há alguém que lucre e leve para casa algo com estes “prémios” são, precisamente, os patrões que beneficiaram das horas que o agraciado trabalhou a mais só para ser recompensado com medalhas de cortiça queimada. São assim, estes empregados, uns seres etéreos que até de comer e dormir prescindem em prol dos outros. Não em prol de todos, obviamente. Isto, de trabalhar de graça e a seco, só para quem mereça e premeie.
Por exemplo, a enfermeira portuguesa que aqui há dias foi premiada no Reino Unido, nasceu aqui, viveu aqui, estudou aqui e quê? Nada, nunca aqui lhe deram prémio nenhum. Não sei se cá se esforçou, deu tempo e trabalho em prol dos outros. O certo é que nunca aqui lhe deram a oportunidade de ser a melhor nascida, vivida, estudante do ano. Não premiamos, não merecemos. Foi-se daqui e deram-lha, logo. A oportunidade e o correspondente prémio. Se é para andarmos a pagar educação e formação e depois não darmos oportunidades a esta gente de ser o enfermeiro, o professor, o engenheiro do mês, ano, da década, do século também não vale a pena. Ou bem que lhe arranjamos logo um monte de velhinhos, alunos, obras, para mostrarem o que valem, ou bem que mais vale exportá-los logo à nascença e os outros que tratem deles.
De mal-agradecidos está o inferno cheio, é o que é. De mal-agradecidos e de patrões espertos, como os patrões franceses e alemães da década de sessenta do séc. passado. Sempre que um português lhes ia pedir trabalho, começavam por o depreciar e achincalhar. Vai daí o português, ferido no seu orgulho, oferecia-lhes uns tempos de trabalho esforçado e gratuito para mostrar o que valia e, se o esforço fosse mesmo muito, talvez acabasse contratado. Hoje em dia a esperteza mais evoluída parece ser a dos ingleses: “Vá, no fim talvez te dê um prémio”. Finos, estes ingleses, ao contrário dos clubes de futebol, têm profissionais a custo zero e ainda se fazem de magnânimos.
Se nos lembrarmos de que quem dá as oportunidades não são os patrões estrangeiros, mas sim o que aqui se investe em educação e qualificação, talvez concluamos que está na hora de os novos emigrados mudarem de postura em relação aos patrões e ao nosso país.

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Fidélia Pissarra

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