Embrutecer

Escrito por Diogo Cabrita

A existência de amanhã já está plasmada em comportamentos de hoje. Os telemóveis embruteceram a cidadania. Queixo-me dos pais que conversam com os petizes a ver telemóveis. Queixo-me da insensibilidade do ruído que emitem entre jogos e telefonemas em “alta voz”. Queixo-me da facilidade com que reduzimos outros a cinza: insultando-lhe o carácter, espremendo-lhe a inocência. Embrutecer é escolher um ator pornográfico para a hora do jantar e ser contra a prostituição. Embrutecer é repetir o Bruno de Carvalho e o “Conde” nos programas de alta audiência. Embrutecer é esses programas terem tanta gente que os segue e conhece. O mundo de amanhã é intempestivo, demasiado alfinetado, consubstancialmente carregado de má-fé. A linguagem nivelou-se por baixo, reduziu-se a processos de interjeição e a tiques integrativos transversais. Reduzir a cidadania é construir um mundo de futebol, uma conversa de lugares-comuns e de linguagem inclusiva. O silêncio revoltado vai ocupando espaço e perdendo a vergonha. Assim, temos uma separação áspera entre dois mundos e um crescendo da intolerância. A incultura é demonstrada na intolerância. A ausência de sabedoria prova-se no fanatismo. A forma como se desconfia dos da saúde e se valoriza os que se focam em improváveis, inconcluídas, infundadas verdades é um sintoma de tudo isto também. Há uma crença que substitui a ciência, talvez porque a ciência se colocou a jeito. Há uma opinião sem fundamento que se coloca em bicos de pés. Eu também desconfio das imposições estatísticas e das determinações políticas. Eu também vacilo das certezas dogmáticas de muitos. Não insulto. Não os quero denegrir. A convulsão do embrutecer vem deste caldeirão onde magia, crença, ciência e religião se convocam para um festim de verdades intocáveis. Não como nesta panela. Caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Sobre o autor

Diogo Cabrita

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