Editorial de Luís Baptista-Martins: Sem palavras…

Foram dias de pânico que se viveram nas duas últimas semanas por toda a região. O horror de uma tragédia anunciada, o flagelo que não conseguimos combater, a destruição massiva da natureza, a força inacreditável do fogo que dizimou tudo, por todo o lado.
As temperaturas extraordinariamente elevadas bastaram para nos devolver à realidade de um país frágil e abandonado. Dias de calor extremo e o fogo voltou a infernizar a vida dos que teimam em viver no interior, dos que vivem em sobressalto a cada verão, dos que acreditavam que, depois de mais de 100 mortes em 2017, o país tinha mudado, mas não mudou.
Como em cada Verão, a forma impressionante como tudo ardeu por todo o lado mostra que todas as medidas foram em vão, porque o fogo é mais forte que o combate e o aumento de meios são, afinal, dinheiro que se atira às chamas. O que não arder agora, irá arder amanhã, porque o fogo faz parte da nossa circunstância. E o que se exige é a melhor gestão do campo, da floresta, do mundo rural. O que se exige são medidas contra o despovoamento, em defesa da natureza, do ambiente e da vida no campo. Sem economia rural, não pode haver pessoas no campo. Sem recursos, ninguém fica na aldeia. Sem modo de vida e futuro, todos têm que partir. Por isso, a primeira opção para combater a tragédia dos incêndios está a montante: nas medidas de fixação de pessoas nas nossas aldeias e vilas. Depois virão as medidas de prevenção, a educação ambiental, a limpeza e o ordenamento da floresta. E não vale a pena procurar culpados, porque é fácil empurrar as culpas para a falta de meios, quando são imensos, para os autarcas, como se o poder central não tivesse responsabilidade no planeamento e gestão do território – se não fosse o poder local a tragédia seria ainda mais violenta; não vale a pena gritar que os incendiários têm de ser metidos na prisão, quando muito para além da origem do incêndio é necessário combatê-lo (ao contrário da filosofia dominante de deixar arder e esperar pelo fogo junto às aldeias, como defendeu o presidente da Liga dos Bombeiros, os bombeiros têm de atacar as chamas nas clareiras da floresta).
Não é possível excluir o fogo do ecossistema mediterrânico, onde o fogo existirá sempre – com as alterações climatéricas haverá secas cada vez mais prolongadas, menos humidade no ar e mais condições naturais propícias à propagação do fogo (sem esquecer as muitas ignições, o vento, a biomassa e a flora predominante).
Mais do que culpados, precisamos de uma política para o território, precisamos de um plano para o país, precisamos de dar futuro ao campo. Até lá, se o nosso concelho não arde, arderá o concelho vizinho; até lá, se não arde este ano, arderá no próximo. As lágrimas que hoje choramos são de revolta pelo estado de abandono a que fomos votados. Não basta resistir e ser resiliente perante a tragédia, temos de erguer a voz e exigir políticas de coesão territorial e desenvolvimento do interior, porque sem economia, sem pessoas, a nossa região não tem futuro.
A imensa tragédia dos fogos na região vitimou Carlos Dâmaso, em Vila Franca do Deão, e Daniel Bernardo, bombeiro da Covilhã, a quem prestamos a nossa homenagem e apresentamos condolências à família e amigos.

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Luís Baptista-Martins

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