Anotações de Hélder Sequeira: Solidariedade com o interior, precisa-se…

Escrito por Hélder Sequeira

Estas semanas escaldantes trouxeram de novo a tragédia dos incêndios que flagelaram impiedosamente, uma vez mais, as terras e as gentes do interior.
O país seguiu, através das imagens televisivas ou das publicações nas redes sociais, a voracidade inclemente das chamas, o hercúleo esforço dos bombeiros, das forças de segurança e das populações; os inúmeros dramas pessoais e familiares, a perda de bens, o desaparecimento irremediável de fauna e flora das regiões afetadas.
Ainda com o país a arder, é importante que as atenções estejam concentradas no combate e numa desejada e eficaz coordenação dos meios para se acabar com este cenário dantesco que deixou já um rasto de morte; contundo é urgente a atuação em prol deste interior que tem sido esquecido e abandonado; um interior que não cabe na redutora, ofensiva e incrível classificação de um território «com pessoas pobres e isoladas e que têm problemas de saúde mental…», como alguém (tem nome, claro) afirmou no decorrer dos comentários a um canal de televisão.
Curiosamente, foram essas mesmas pessoas, do dito interior, que enfrentaram estoicamente as chamas, unindo-se numa luta tremenda, manifestando uma enorme solidariedade, mostrando (de novo) a sua capacidade de resistência, a sua grande humanidade.
O jornalista Nuno Francisco (diretor do “Jornal do Fundão”) escrevia há dias que o interior não pode ser entendido «como uma realidade marcada num mapa, com fronteira definida e sinalizada pelo GPS do nosso carro. O Interior não é apenas um lugar, é uma consequência. E todos os verões estão cá para nos recordar disso. Não nos procurem nos mapas, porque a ausência e o esquecimento não são cartografados. Tal como a coragem de quem cá (ainda) resiste e insiste…».
E quanta insistência tem havido, ao longo de décadas – por parte de quem vive e resiste nestes territórios raianos e do interior – para que se anulem as assimetrias e se desenvolvam estratégias e políticas solidárias, justas, pragmáticas…
O interior não aceita ser considerado como reserva paisagística (até as paisagens nos são roubadas pelo fogo…) para ser visitada ocasionalmente, de passagem obrigatória para outros destinos, ou em períodos de campanhas eleitorais; nem tão pouco ser notícia apenas nestas ocasiões de fogos florestais ou de fatídicos episódios ocasionais.
Será que nos restantes dias, meses e anos não há vida e não se vive ou nada acontece no interior? Felizmente há ainda exceções (poucas) de jornalistas que radicados nestas terras cumprem o seu dever e enobrecem a missão de informar, com rigor e verdade.
Aliás, é também a verdade relativamente às causas dos incêndios, às falhas, aos atrasos nas decisões, às ausências institucionais que importa transmitir às populações, numa análise objetiva e serena; orientada para a necessária correção dos erros, aproveitamento das experiências colhidas no terreno, para uma estreita cooperação, para um diálogo construtivo entre todas as entidades intervenientes no combate aos incêndios, onde não entre o aproveitamento político, mas a determinação em poder e saber responder nestes momentos críticos.
É este o apelo das gentes do interior, dos nossos Bombeiros Voluntários (que fizeram o possível e o impossível no contexto das condições a que estavam circunscritos); dos elementos das forças de segurança e da proteção civil, dos agentes de investigação criminal (a Polícia Judiciária esteve também no terreno e deteve presumíveis incendiários); interior para o qual devem, desde já (não é preciso mais estudos ou comissões, há indicadores e trabalhos suficientes!) ser tomadas rápidas e consequentes medidas de apoio (os prejuízos são imensos, basta ver os casos de Trancoso, Mêda, Sabugal, Seia, Guarda, Vila Nova de Foz Coa, por exemplo), respondendo aos casos mais urgentes e pensando – imediatamente – no “efeito cascata” que resulta das zonas ardidas onde as chuvas irão atuar de forma evidente, com o arrastamento de cinzas e outros detritos.
Nestas zonas atingidas, assim como nas mais próximas (que podem ser o refúgio para muitos animais e aves), deve ser repensada a atividade cinegética, se não queremos correr o risco de uma ainda maior exterminação…
Hoje, mais do que nunca, o interior e as regiões atingidas pelos incêndios (à hora em que escrevemos estas palavras ainda há fogos ativos) precisam da presença, atenção e intervenção do Governo e do poder local, da solidariedade dos restantes territórios, do empenhamento de todos numa maior capacitação, eficácia e consciência cívica para se responder no futuro a situações desta natureza. Aqui também é Portugal!…

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Hélder Sequeira

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