Ainda sobre a série “Adolescência” – Abril: Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância!

Escrito por Daniel Lucas

De repente, ficamos em pânico, até ao momento em que… esquecemos! Para quem teve a oportunidade de ver a série Adolescência, as temáticas abordadas caíram quem nem uma bomba. Discussões e opiniões invadiram redes sociais e jornais, como se tudo fosse uma novidade e como se as décadas dos loucos anos 60 até à atualidade não tivessem conhecido esta fase da vida tão inquietante, e ao mesmo tempo, tão fascinante. Mas, já lá vamos!
A adolescência é, por definição, um território de desassossego. Um limbo entre o ser e o vir a ser, onde o passado infantil já não serve de abrigo e o futuro adulto ainda não se revela por completo. É uma travessia solitária, mesmo quando rodeada de vozes! Para os pais é um campo minado de incertezas: como entender quem já não se reconhece? Como ajudar sem invadir? Como estar presente sem sufocar?
Voltando à série Adolescência, esta não nos dá respostas fáceis. Nem poderia! Porque a adolescência não é um enigma a ser decifrado, mas um processo a ser vivido e muitas vezes, sofrido em todas as perspetivas e planos. Ao assistir, tive a sensação de não querer que terminasse, como se o último episódio me devesse respostas para os sofrimentos antecipados. Mas não há respostas prontas. Owen Cooper e os demais protagonistas não apenas interpretam, como são incisivos, com uma simplicidade feroz, numa realidade que se desenrola diante de nós e que preferimos não ver, alfinetando dores que transbordam da tela e se infiltram na nossa própria memória, nas nossas próprias cicatrizes, ou não…
De acordo com o Relatório de Atividades das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), em 2023, foram acompanhados 79 511 Processos de Promoção e Proteção, refletindo um aumento de 6,7% face a 2022. Estes dados confirmam a tendência de crescimento registada desde 2020. Na CPCJ da Guarda, o relatório local de 2024 aponta para a mesma evolução ascendente, com um total de 218 processos em acompanhamento: 118 transitaram de 2023, 74 correspondem a novos casos, 25 foram reabertos e 1 transferido de outra CPCJ. O documento ressalva ainda as dificuldades enfrentadas, nomeadamente na prevenção eficaz, devido à escassez de recursos, e os desafios na gestão processual.
E é aqui que a questão social se impõe. Nunca houve tantas respostas sociais para famílias, infância e juventude, nem tantos apoios financeiros para famílias vulneráveis e instituições de acolhimento. A recente Portaria n.º 95/2024/1 de 11 de março, por exemplo, prevê apoios entre 1.150,00€ e 3.334,51€ por criança/jovem, por mês. Assim, como a medida da Garantia para a Infância, iniciativa da União Europeia que visa combater a pobreza infantil e promover a inclusão social de crianças em situação de vulnerabilidade, em que cada país desenvolve o seu Plano de Ação Nacional, adaptado à sua realidade. Constam no plano português: a gratuitidade das creches; o reforço da ação social escolar; o aumento da rede da educação pré-escolar para garantir que todas as crianças tenham acesso; o acesso gratuito a consultas de pediatria e saúde mental para crianças e adolescentes em risco; o apoio a famílias com crianças em risco de despejo ou habitação precária; o reforço do programa de refeições gratuitas nas escolas, garantindo que todas as crianças tenham acesso a uma alimentação equilibrada; o apoio a famílias através de cabazes alimentares e programas; o aumento e reforço do Abono de Família para crianças e jovens em situação vulnerável; a criação de apoios adicionais para famílias monoparentais e com crianças com deficiência. Outras questões surgem: Se os recursos aumentam, porque continuam os números a crescer? Onde estamos a falhar? Estamos a apostar no grupo certo? Estamos a intervir na hora certa?
Vivemos tempos de isolamento emocional, em que a conexão se confunde com a exposição e a presença se dissolve na distração. Como sociedade, falhamos em acolher. Construímos um mundo onde a vulnerabilidade é tratada como fraqueza, onde os pequenos sinais de sofrimento são banalizados e vistos como dramas passageiros. Mas o que Adolescência nos mostra, com uma honestidade crua, é que a negligência emocional pode ser tão letal quanto a violência explícita.
Abril é o Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância. Mas que prevenção estamos a fazer? Um laço azul no peito chega para mudar a vida de uma criança que sente medo em casa? Um cartaz sobre parentalidade positiva pode substituir o abraço que nunca surgiu? Colocar os filhos em atividades, extracurriculares e apoios, é o suficiente? Se queremos proteger, temos de estar atentos. Maus-tratos não são apenas marcas visíveis. São silêncios longos, são ausências, são gestos reprimidos. São gritos que ninguém ouve porque nos habituámos ao ruído do mundo. Não irei fazer spoiler. Mas convido a assistir a série, a sentir e acima de tudo, a refletir se estamos realmente preparados para Olhar o outro para além das aparências; Se estamos dispostos a abdicar do conforto da indiferença e a reconhecer que atrás de um comportamento rebelde ou de um silêncio insistente, pode estar um pedido de socorro!
Se há algo a aprender com esta série, talvez seja isto: A Humanidade não está na resposta, mas no Acolher, no Escutar e no Agir.

(Se conhece alguma criança/jovem em situação de perigo deve contatar: Comissão De Proteção de Crianças e Jovens |271 220 233|cpcj@mun-guarda.pt)

Sobre o autor

Daniel Lucas

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