Opinião de Romeu Curto: Crimes à beira-rio

Escrito por Diana Rodrigues

Este verão, na Praia Fluvial do Poço da Monteira, contei três. Na da Lapa dos Dinheiros, perdi a conta. Toalha estendida, pés na água fria, lápis atrás da orelha e, aberto sobre os joelhos, um livro com um nome que parece gralha: Murdoku. Gente de todas as idades curvada sobre a mesma página, com a expressão de quem está a decidir, com enorme gravidade, se a senhora de chapéu podia ou não estar ao lado da planta. Não os julguei. Eu tinha um na mochila, oferecido por um familiar, e andava há semanas naquele estado em que se diz “só mais um caso” com a mesma convicção com que se diz “só mais um episódio”.

Para quem ainda não caiu, explica-se depressa. É um sudoku em que, em vez de números, se arrumam suspeitos na planta de uma casa. Uma pessoa por linha, uma por coluna, ninguém se senta em cima da mesa. A vítima fica no último lugar livre e o assassino é quem estava sozinho com ela na mesma divisão. Parece pouco. Ao vigésimo caso, dá-se por si a discutir com a cara-metade se o cowboy podia estar na cozinha, como se disso dependesse o casamento. E depende um bocadinho.

Os números são dos que fazem editores chorar de alegria. O canadiano Manuel Garand, que costuma publicar enigmas no Financial Times, lançou o primeiro livro em outubro de 2025. Menos de um ano depois, está publicado em quinze línguas. Só em Espanha, segundo o El País, venderam-se mais de 240 mil exemplares desde novembro, o suficiente para ser o livro de não ficção mais vendido em castelhano. Em Portugal, onde sai pela IN Edições, não encontrei números. As praias fluviais da Beira dispensam a estatística.

A graça maior está no caminho que o livro fez até às nossas toalhas. É um passatempo de papel e lápis, apresentado como remédio para o excesso de ecrã, e tornou-se fenómeno graças ao TikTok e ao Instagram. Uma criadora de conteúdo espanhola publicou o primeiro vídeo convencida de que não interessaria a ninguém e passou os três milhões de visualizações. E há, conta o El País, quem nem compre o livro. Vê os outros resolverem. Isto merece um minuto de silêncio. Um jogo cuja única virtude é obrigar-nos a pensar, e há quem prefira ver um desconhecido pensar por si, em vídeo acelerado, com música de suspense por cima. É como ir ao ginásio ver os outros levantar pesos e sair de lá com a sensação de ter feito braços. Já nem o esforço mental é nosso. Subcontrata-se.

Porque é que este pegou, quando o mundo dos passatempos vive há vinte anos dos rendimentos do sudoku? Novidade não é. As palavras cruzadas, a sopa de letras, o próprio sudoku e o Murdle, um primo próximo, andam por aí há muito. Talvez seja o enredo. Cada caso tem cenário próprio, uma padaria, um casino, uma ópera, um torneio de xadrez, e isso transforma um exercício de lógica numa pequena história. No fim de cada página, acusa-se alguém. E há poucas coisas tão humanamente satisfatórias como apontar o dedo e ter razão.

O que mais me interessou, na praia, foi outra coisa. Joga-se a dois. Vi casais debruçados sobre a mesma página, amigos a discordar em voz alta, um avô a explicar ao neto porque é que aquela suspeita só podia estar ao lado da planta. Não tenho estudo nenhum que o prove, e desconfio de quem cita neurociência para vender livros de passatempos, mas custa-me acreditar que uma tarde assim faça pior à cabeça do que a mesma tarde a deslizar o polegar por vídeos de quinze segundos. Nos reels ninguém discute com ninguém. Concorda-se em silêncio e passa-se ao seguinte.

Façamos as contas a quem passa quatro horas por dia agarrado ao telemóvel, que não é gente rara, e não me excluo da suspeita. Não proponho lei nenhuma nem retiro espiritual. Proponho uma aritmética modesta: meia hora de ecrã, que ninguém é de ferro, e as três horas e meia que sobram entregues a outra coisa. Um livro, uma caminhada, uma conversa, um crime por resolver. Se for à beira de uma ribeira, melhor ainda. Mal não fará. E, ao contrário do que acontece com o telemóvel, no fim sabemos quem foi o culpado.

Sugestões deste mês:

Casos gratuitos de Murdoku para imprimir: https://murdoku.com/pt/print

Festival “EM TRÂNSITO – artes performativas para novos públicos” da Quarta Parede na Covilhã

Docs de apoio:

Jiménez, A. (2026, 19 de junho). Por qué Murdoku es el pasatiempo del momento: la satisfacción de resolver asesinatos como un sudoku. El País.

SIC Mulher (2026, 13 de julho). Esqueça o Sudoku. O Murdoku é a nova febre que está a conquistar as redes sociais.

Lopes, A. (2026, 23 de agosto). Murdoku: o puzzle que transforma o Sudoku numa investigação criminal. Echoboomer.

Matos, T. (s.d.). O que é murdoku? Estante Fnac.

 

Novembro, 2026 Romeu Curto

 

Sobre o autor

Diana Rodrigues

Deixe comentário