Sociedade

Livro dos 50 anos do Poder Local na Guarda gera polémica

Escrito por ointerior

Ausência de testemunhos de personalidades ligadas ao poder local obriga a autarquia a alargar convite a outros colaboradores

A publicação de um livro sobre os 50 anos do Poder Local, pela Câmara da Guarda, cuja apresentação estará prevista para 12 de dezembro, levou Thierry Santos, a abandonar a coordenação da obra. O livro comemorativo estava em fase final de paginação, para depois serem feitas as provas e correção, quando o executivo municipal conheceu a lista dos 50 autores e concluiu que faltam na obra testemunhos de personalidades importantes da sociedade guardense para além das 50 que tinham sido convidadas por Thierry Santos. O até agora coordenador da obra enviou sexta-feira passada um e-mail aos colaboradores, sobre uma putativa «decisão superior» de «cancelamento» da publicação.
Um dia depois, no sábado, a Câmara da Guarda, contrariando o teor do mail de Thierry Santos, esclareceu em comunicado enviado a O INTERIOR que «continua a preparação do livro» “Guarda: 50 Anos de Poder Local Democrático: Território, Pessoas e Futuro” e que «todos os textos e obras gráficas já entregues pelos colaboradores fazem parte da obra e serão publicados na versão final», adiantando ainda que «o objetivo foi sempre garantir um livro abrangente e democrático, que respeite em absoluto todas as forças políticas com representação autárquica, atual e passada».
A autarquia salienta que «a versão atual ainda não inclui o testemunho escrito de protagonistas essenciais da história» e que «faltam responsáveis de partidos políticos, deputados municipais, presidentes de junta de freguesia, vereadores que definiram políticas ao longo de vários mandatos, presidentes de assembleia municipal e presidentes de câmara que conduziram os destinos do concelho da Guarda». Assim, o trabalho de «juntar e reunir todas essas vozes e tornar a obra tão plural e representativa como a própria democracia local na Guarda, continua» lamentando que «uma obra desta importância tenha padecido de alguns mal-entendidos que serão rapidamente esclarecidos».
A JSD, igualmente em comunicado enviado no domingo, considera que se trata de «uma decisão política e um grave atropelo a direitos, liberdades e garantias consagradas na Constituição». A JSD fala mesmo de «censura», argumentando que «quando o poder político trava uma publicação depois de conhecer o seu conteúdo, há liberdade para pensar que o fez por não gostar do que leu, por se sentir incomodado com algumas opiniões ou por não conseguir conviver com a pluralidade».
A JSD exige que o presidente da Câmara «como primeiro e último responsável político, esclareça publicamente com que fundamentos tomou a decisão, e que assuma as respetivas consequências», afirmando que «a obra estava pronta para ser impressa». No entanto, segundo Thierry Santos, em mensagem enviada a O INTERIOR esclareceu que o livro está na fase de paginação e impressão de provas, acentuando que «são as provas que estão para correção» pelos respetivos autores e que, «só depois disso, o livro ficará pronto» para ser impresso e publicado.
O PS Local, também num comunicado enviado a O INTERIOR, na segunda-feira, diz que «o esclarecimento emitido pela Câmara da Guarda alegando que o livro afinal continua e invocando um suposto mal-entendido, não passa de um recuo forçado e de um exercício de controlo de danos em pânico, perante a exposição pública dos factos».
O PS afirma ainda que «tentar justificar o travão na publicação com a alegada necessidade de reunir mais vozes é uma manobra demagógica que expõe o dirigismo autárquico e a aceitação do vício da ingerência política sobre a autonomia dos equipamentos e projetos culturais do concelho».
O assunto foi abordado na reunião do executivo desta semana.
O vice-presidente da autarquia, António Fernandes, que presidiu à sessão, na ausência de Sérgio Costa, que se encontrava no estrangeiro, esclareceu que, «provavelmente, houve aqui um conjunto de mal entendidos e a obra necessita de ser reatualizada com o contributo de outros intervenientes que fizeram a história destes 50 anos do poder autárquico, livre e democrático e que fazem parte da história pelo seu papel como autarcas, empresários, jornalistas e pelo seu papel na sociedade». O vereador afirmou que «Abílio Curto não está no livro, Maria do Carmo Borges não está no livro, Álvaro Guerreiro não está no livro, Álvaro Amaro não está no livro, José Martins Igreja não está no livro», questionando «se foram convidados ou declinaram o convite».
António Fernandes realçou ainda que, «como outras personalidades, todas a 56 juntas de freguesia, atuais e antigas, incluindo Vale da Amoreira e São Miguel, merecem um contributo especial para uma obra desta natureza que traduz os 50 anos do poder autárquico» no concelho da Guarda.
A vereadora do PSD/CDS/IL, Alexandra Isidro, disse que trata de «um dano reputacional» numa altura em que está a desenvolver-se uma candidatura a Capital Portuguesa da Cultura e, «no momento determinante em que estamos a elaborar a candidatura, a mostrar-nos e a posicionar-nos perante as outras candidaturas, sermos notícia e estar lá fora a ideia de que a Câmara pode ter cancelado um livro desta importância». A vereadora disse que fica a aguardar «que seja publicado com mais colaborações», mas, esta ligação à capital portuguesa da cultura «parece-nos particularmente relevante e parece-nos que isto já correu mal».
Para o vereador do PS, António Monteirinho, o argumento apresentado pela câmara, depois de instalada a polémica, de que «a obra não foi cancelada e que falta o testemunho de personalidades importantes» de alguns presidentes de Câmara que «não sei se foram convidados e se não quiseram participar ou se não foram mesmo convidados, parece-me perfeitamente justificado».

“Guarda: 50 Anos de Poder Local Democrático: Território, Pessoas e Futuro”

Esta é a lista de personalidades que aceitaram escrever os seus testemunhos para a obra “Guarda: 50 Anos de Poder Local Democrático: Território, Pessoas e Futuro” a que O INTERIOR teve acesso:
Aires Almeida, Albino Bárbara, Alexandra Isidro, Alexandra Morais, Ana Manso, António Ferreira, António José Teixeira, Beatriz Realinho, Carlos Carvalheira, Carlos Chaves Monteiro, Cidália Martins Valbom, Diana Soraia Gonçalves dos Santos, Elsa Fernandes, Fátima Palos, Hélder Sequeira, João de Almeida Santos, João Prata, Joaquim Carlos Dias Valente, Joaquim Martins Igreja, Jorge Margarido, José Luís Lima Garcia, José Manuel Monteiro, José Relva, José Rodrigues, Luís Baptista-Martins, Luís Filipe Soares, Madalena Ferreira, Manuel Pereira de Matos, Messias Janeiro, Nelson Oliveira, Pedro Pires, Rui Isidro, Salete dos Santos Martins Pinto, Sérgio Costa, Thierry Proença dos Santos e Víctor Amaral.

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