Camadas de cebola

Escrito por Sofia Pereira

Na crónica da semana passada, manifestei a minha tolerância com representações narrativas multiétnicas de personagens que nasceram da testa do pai e de ovos da mãe. No entanto, e para que ninguém pense por mais de uma semana que o vírus do identitarismo bateu a esta porta, venho manifestar uma outra intolerância semelhante à que tenho à cebola, um bolbo que me causa muita azia.

Hollywood e a indústria audiovisual norte-americana não conseguem parar o seu progressismo nas representações fantásticas onde deuses e musas e gigantes podem ser de qualquer cor, de qualquer forma, de qualquer espécie, e vão por ali fora, com a diversidade étnica e sexual a invadir as narrativas de forma tão violenta, que acaba por arruinar ideias que os argumentistas querem – muitas vezes à bruta – transmitir.

Relato dois casos recentes. O primeiro é uma série que passou despercebida em Portugal, Hunting Wives, uma espécie de Donas de Casa Desesperadas no Texas trumpista. Nesta série, uma liberal bem-intencionada de Massachusetts vê-se no mundo das milionárias donas-de-casa sulistas, onde se escondem os abortos e se exibem as armas.

No primeiro episódio, a protagonista progressista, pró-escolha na interrupção da gravidez e anti-escolha na posse de armas, fica chocada com um discurso notoriamente racista e profusamente aplaudido numa festa organizada pela outra protagonista – a sueca Malin Ackerman com excelente sotaque texano. No mesmo episódio, a boa bostoniana conhece o grupo de donas-de-casa tradicionais, que lhe explicam que não trabalham nem precisam, porque são casadas com homens ricos. É aqui que me vem a azia. Nesse pequeníssimo grupo de mulheres casadas com milionários trumpistas, xenófobos e retrógrados (epítetos que os argumentistas nos enfiaram pelos olhos dentro minutos antes), uma delas é negra. À força de querer diversidade no elenco, destrói-se todo o argumento do racismo das velhas famílias ricas texanas que os autores e produtores tanto se esforçaram por mostrar. Perguntará o leitor, sempre a interromper: “mas, e então, não poderá acontecer?” Respondo: nos milhares de fotografias reais das festas do Sul dos EUA publicadas em revistas da especialidade já é difícil encontrar mulheres com cabelo escuro. Imagine-se a pele.

Noutra série, The Handmaid’s Tale, os produtores não tiveram sequer a sensatez de respeitar o texto original de Margaret Atwood. A escritora, sabendo do que fala, escreveu sobre um regime totalitário, fascista, misógino, racista. Nessa sociedade de supremacistas brancos, em nome da pureza racial. escreveu Atwood, a diversidade foi expulsa de Gilead. Ou escravizada nas colónias. Na televisão, porém, as coisas são diferentes. O terrível regime é absolutamente tolerante com a diversidade étnica. Nessa sociedade da televisão podem perfeitamente existir governantes negros e asiáticos ou mulheres brancas dos comandantes que não têm qualquer problema em criar filhos negros que não são seus. Sim, a Gilead da TV mostra um totalitarismo execrável com as mulheres, mas a mesma Hollywood que vê racismo em todo o lado é incapaz de representar um fascismo que seja também racista.

Aguardo, com ansiedade e comprimidos para a acidez, pelo próximo filme de Hollywood sobre o nazismo em que os ministros de Hitler sejam um negro, um judeu, um homossexual e um cigano.

 

*Nuno Amaral Jerónimo

Sobre o autor

Sofia Pereira

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