O Mês do Coração está a terminar, mas a atenção que devemos ter com a nossa saúde cardíaca deve manter-se o ano inteiro. Luís Ferreira dos Santos, Coordenador de Cardiologia no Hospital CUF Viseu, alerta para a elevada prevalência em Portugal das doenças que afetam o coração e para o facto de estas serem, muitas vezes, patologias silenciosas. Revela ainda os avanços tecnológicos que, nos últimos anos, têm tornado o diagnóstico e o tratamento destas doenças mais precisos e eficazes.
P- Quais são as principais doenças cardíacas que afetam a população portuguesa?
R- As principais doenças cardíacas em Portugal são a doença coronária, que é a mais comum entre as doenças do coração; a insuficiência cardíaca, que afeta 2,9% dos adultos portugueses; as arritmias, sobretudo a fibrilhação auricular, com uma prevalência estimada de 2,5% na população com mais de 40 anos; e ainda as miocardiopatias.
A prevalência destas doenças é muito elevada, mas há uma tendência para a estabilização do número de enfartes. A insuficiência cardíaca, por seu lado, ganhou maior predominância, sobretudo devido ao envelhecimento da população e à maior sobrevivência associada a eventos como os enfartes ou a tratamentos oncológicos com elevado impacto no coração.
P- Quais os fatores que contribuem para estes valores?
R- Existe uma elevada prevalência de fatores de risco como a hipertensão arterial – 40% dos adultos portugueses são hipertensos –, o colesterol elevado, o tabagismo, a diabetes, o excesso de peso, o sedentarismo, o consumo excessivo de álcool, o stress crónico e o sono insuficiente.
Estes fatores, muitas vezes associados, potenciam-se entre si, o que aumenta significativamente a probabilidade de doença cardiovascular.
P- Quais os sintomas que devem sempre justificar uma consulta de Cardiologia?
R- Os mais importantes são dor ou aperto no peito, falta de ar, palpitações, desmaios e tonturas, cansaço desproporcional e inchaço nas pernas ou tornozelos.
P- E é possível não ter sintomas, mas ainda assim, ter uma doença cardíaca?
R- Sim, isso é especialmente comum em fases iniciais de patologias como a hipertensão arterial, doença coronária, arritmias ou insuficiência cardíaca.
Para todos os adultos sem sintomas, o mais importante é não esperar que estes apareçam para cuidar do coração. Nesse sentido, é indispensável medir frequentemente a tensão arterial, o colesterol, a glicemia, controlar o peso e não fumar.
Exames como ecocardiograma, prova de esforço, Holter ou TAC coronária são normalmente pedidos quando há múltiplos fatores de risco, história familiar de doença cardíaca em idade precoce, idade avançada ou suspeita clínica concreta.
P- Como têm evoluído, nos últimos anos, o diagnóstico e o tratamento das doenças cardíacas?
R- O diagnóstico e o tratamento são cada vez mais precoces, mais precisos e menos invasivos. A imagem cardíaca evoluiu muito com a ecocardiografia avançada, a Tomografia Computorizada (TC) cardíaca, a ressonância cardíaca e outras técnicas que permitem ver, cada vez melhor e com menos invasão, a estrutura, a função e a anatomia coronárias.
No enfarte, o grande avanço foi a expansão de terapias de reperfusão, com a angioplastia primária, que tem reduzido complicações e mortalidade, sobretudo porque o tempo até ao tratamento passou a ser mais curto.
Já no caso da insuficiência cardíaca, tem havido uma grande evolução ao nível de um melhor diagnóstico e de uma terapêutica mais dirigida. A criação de Unidades de Insuficiência Cardíaca como a que existe no Hospital CUF Viseu permite um acompanhamento e tratamento diferenciados destes doentes, através de uma equipa multidisciplinar de especialistas, que define planos terapêuticos individualizados.
P- No caso específico das arritmias, quais os avanços que destaca?
R- Nas arritmias, os avanços relevantes têm passado também pela possibilidade de diagnósticos mais precisos, pelo mapeamento eletro-anatómico avançado, pela ablação por cateter mais eficaz e por dispositivos implantáveis mais pequenos e seguros.
A ablação de fibrilhação auricular evoluiu imenso, o que se traduz numa maior taxa de sucesso e em menos complicações para um grande número de doentes. Passámos de um diagnóstico muitas vezes intermitente e de terapêuticas mais “cegas” para uma abordagem mais tecnológica, personalizada e preventiva. Todas estas respostas, tecnologicamente avançadas, estão hoje disponíveis nas unidades CUF, permitindo um acompanhamento próximo, por equipas especializadas e com todos os meios para um diagnóstico preciso e um tratamento adequado das arritmias.
P- De que forma estão a contribuir estas soluções para melhorar a qualidade de vida dos doentes com arritmias?
R- A ablação de arritmias por cateter reduz sintomas, diminui internamentos, aumenta a segurança e permite um seguimento mais cómodo e personalizado. Isto significa que mais doentes conseguem trabalhar, dormir e fazer exercício com menor limitação. Além de que se consegue uma maior tranquilidade. Um doente com fibrilhação auricular recorrente que, anteriormente, tinha crises frequentes, idas repetidas às urgências e sentia um medo permanente de complicações pode hoje, após uma ablação bem-sucedida, não ter episódios, passando a viver de uma forma mais estável e feliz.



