Antes de 2016 e da sua primeira eleição, Trump escrevia no então Twitter que Obama, para mostrar serviço, poderia atacar o Irão. Entendia Trump que isso era um erro e que, fosse ele presidente, os EUA não se envolveriam em guerras. Os anos passaram e Trump mudou de ideias, não se sabe bem a propósito de quê, até porque se gabou, no ano passado, de ter destruído a possibilidade de os iranianos desenvolverem armamento nuclear.
Antes desse ataque, era suposto ter havido um mandato do Conselho de Segurança da ONU, ou pelo menos aprovação do congresso norte-americano, mas Trump e Netanyahu, ambos com importantes eleições este ano, decidiram avançar sem qualquer mandato que não a sua própria vontade e interesses: Netanyahu porque se ganhar as próximas eleições poderá evitar ou adiar a cadeia; Trump porque se eliminar o “perigo” iraniano talvez tenha hipótese de não perder as eleições para o Congresso e para o Senado de novembro deste ano. Para além disso, tendo percebido que não irá ganhar nunca o Nobel da Paz, nada o inibe hoje de tentar a sua própria aventura militar.
Alguém escrevia no Facebook que chorava pelo Irão, pela Palestina, por Hiroshima e Nagasaki, pelo Vietname e por mais algumas vítimas do que se costumava chamar “Ocidente”. Esse alguém chora só de um olho, porque há muito mais vítimas a chorar e podia falar-lhe nas de Pol Pot ou Putin, por exemplo, mas não vou por aí nem pelo caminho oposto.
A verdade é que o Irão financia várias organizações terroristas, do Hamas aos Houtis e a todos os que diz incluírem o que chama de “Eixo da Resistência” e que têm como objetivo declarado a destruição de Israel e têm levado a cabo ataques terroristas contra Israel. O Irão é ainda fornecedor de armas e sobretudo drones à Rússia, para esta continuar a sua agressão à Ucrânia. É verdade também que o regime iraniano é uma ditadura e que as suas políticas em nada têm ajudado o seu próprio povo e apenas lhe têm trazido miséria e sofrimento. O facto de o seu chefe supremo, recentemente assassinado, estar no poder há mais de 40 anos é típico de sociedades não democráticas. Não há, portanto, uma lágrima a verter pelo regime iraniano ou pelos seus líderes e se quiserem chorar, chorem pelo povo iraniano, perseguido, torturado e reprimido há muitas décadas, incluindo as do tempo de Reza Pahlavi.
Nestes tempos modernos não parece haver palavra, como mostra o facto de o ataque americano ter sido desencadeado durante uma fase de negociações. É claro que a palavra de Trump não tem valor nenhum, o que envergonhará até os americanos da esfera MAGA, mas isto seria esperar demasiado.
Temos entretanto de notar a falta de coluna vertebral dos nossos governantes no caso da utilização da base das Lajes no ataque ao Irão. Fomos envolvidos numa guerra (é uma guerra, não é?), ninguém pediu a nossa opinião e a posição do governo é que não tinha de ser pedida. Que vergonha!


