Todos os verões repetimos o mesmo filme. O céu fica com aquela cor de carvão molhado, os helicópteros fazem praias aéreas no Zêzere, a rádio fala de “reações às ignições” com a mesma naturalidade com que se lê a meteorologia. E nós, perante o incêndio, somos sempre muito corajosos a olhar para a frente e muito tímidos a olhar para o lado. Falamos do vento, da humidade relativa e da temperatura, mas raramente falamos do território que deixámos ficar à mercê do primeiro fósforo com vocação de influencer.
Prevenção não é um slogan, é trabalho de carpintaria do país. Não tem glamour. Não há selfie com cabras a pastar num aceiro. Não rende abertura de telejornal a limpar mato em fevereiro. Mas é aí que o fogo se decide, meses antes de alguém ligar 112. Um território feito de mosaicos, com agricultura onde pode haver agricultura, pastagem onde faz sentido, matos baixos onde eles quebram a chama, e florestas autóctones onde o tempo cresce devagar e arde mais devagar ainda. E, já agora, alguém a pagar por isto como se paga por uma ponte ou por um hospital, porque é uma infraestrutura crítica. Enquanto o dinheiro cair a sério em agosto e a conta de inverno for “logo se vê”, vamos continuar a queimar duas vezes: primeiro o pinhal, depois o orçamento.
A isto junta-se, mais recentemente, a pressa solar. E atenção, não estou a pôr do sol em tribunal. Precisamos de renováveis, queremos metas de 2030, 2040, 2050 a apontar para baixo nas emissões. O problema não é o sol, é a sombra. Nas notícias da Cova da Beira/Baixa ouviu-se a mesma cantilena: estradas esventradas por obras apressadas, drenagens por fazer, cabos a abrir corredores de cinquenta metros durante quilómetros, uma central com setenta mil painéis a ocupar cinquenta hectares e a cortar carvalhos como quem desata uma fita. Os moradores pedem segurança, as autarquias dizem “cumprimos a lei”, a paisagem não tem microfone.
A Quercus tem dito o óbvio que tarda: grandes fotovoltaicos fora de florestas e áreas protegidas, e avaliação de impacto ambiental obrigatória mais cedo, não só quando o projeto já se vê do satélite. E há outra obviedade que convém repetir até entrar: antes de espetarmos painéis em encostas com solo vivo e bicho miúdo, talvez valha a pena cobrir telhados, parques industriais, pedreiras abandonadas, terrenos degradados, eucaliptais queimados e deixados ao Deus-dará. Já agora, se a fúria da energia verde precisa mesmo de derrubar árvores, comece pelas invasoras, não pelos sobreiros. Não é provocação, é aritmética do risco.
Entretanto, no Vale do Alva, a discussão sobre um parque fotovoltaico em encosta sensível trouxe perguntas de criança, daquelas que os adultos têm vergonha de fazer. Foi feito estudo de impacto ambiental e paisagístico? Existem alternativas na zona industrial e nas coberturas públicas? A comunidade foi ouvida ou é para saber pela imprensa? Isto não é burocracia, é cinto de segurança. Se o projeto é bom, sobrevive à transparência. Se não aguenta perguntas, talvez não aguente um verão.
No meio disto, insiste-se num truque de magia que já devia envergonhar: abatem-se mil sobreiros aqui, compensa-se plantando setecentas e tal árvores lá longe. Como se um ecossistema de décadas pudesse ser substituído por um Excel com colunas “plantado” e “compensado”. A floresta não é uma aritmética com talões de desconto. Um sobreiro velho não cabe num viveiro, tal como um professor experiente não cabe num berçário.
Dir-me-ão: mas o fogo não nasce dos painéis. Verdade. O fogo é um somatório de fatores, e a nossa relação com a monocultura é um deles. Durante décadas semeámos fósforos de crescimento rápido em encostas de risco. Ao lado, deixámos a pastorícia cair, os caminhos fechar, a limpeza virar multa em vez de virar emprego. Criámos um país inflamável e estivemos sempre muito disponíveis para o heroísmo do combate, pouco disponíveis para a rotina chata da prevenção. E como o dinheiro gosta de atalhos, inventámos uma economia da exceção: rendas de inação no inverno, rendas de combate no verão. Há contratos que só são lucrativos se arder. Não é teoria da conspiração, é um incentivo mal desenhado.A lição aplica-se, ponto por ponto, à fileira das energias e à gestão florestal: procedimentos competitivos, informação pública, objetivos mensuráveis, auditorias com resultados à vista. O território não precisa de um dono, precisa de regras claras. E os investidores sérios também.
O país, nestas coisas, gosta muito de épica. Os bombeiros são heróis, os pilotos são heróis, o tipo que desceu do trator e fez uma faixa de contenção é um herói. Tudo verdade. Mas eu gostava que a nossa épica passasse a ser mais RGA do que Hollywood: Relatório, Gestão e Atitude. Relatório, para sabermos o que correu bem e mal sem lirismos. Gestão, para pagarmos prevenção como se paga aquilo que salva vidas. Atitude, para dizer ao promotor de uma obra que rasga encostas sem drenagem que não, não vai ser “depois logo se corrige”, e ao proprietário que replantar a encosta toda com o mesmo fósforo não é plano, é reincidência.
A pergunta certa não é se queremos energia limpa. Queremos. A pergunta é onde e como. E a pergunta certa sobre os fogos não é se o verão vai ser difícil. Vai. A pergunta é o que estamos a fazer agora, em abril, em maio, em novembro, quando ninguém está a filmar, para que o próximo verão seja um bocadinho menos inevitável. Se continuarmos a tratar o território como cenário, vai continuar a arder como figurante. Se o tratarmos como infraestrutura, com orçamento, contrato e prestação de contas, talvez comecemos a ter verões mais curtos, paisagens menos cansadas e notícias que não sejam sempre as mesmas.
No fim, é simples. Prevenção é planear; transição energética é escolher sítios e modos certos; participação pública é ouvir antes de abrir a vala. O resto é labareda. E desse glow já tivemos época a mais.
Sugestões deste mês:
Livro – Rogélia Maria Proença – “Natal na Cidade Fria”
Espetáculo: CAMISOLA PRETA “Aguarda Referendo” – no dia 24 de janeiro no Teatro Municipal da Covilhã
Docs de Apoio:
SIC Notícias. “Moradores apontam dedo ao impacto negativo das centrais solares de Castelo Branco.” 09-02-2024. https://sicnoticias.pt/pais/2024-02-09-Moradores-apontam-dedo-ao-impacto-negativo-das-centrais-solares-de-Castelo-Branco-f6ee2da5
Quercus (via Agroportal). “Quercus quer centrais fotovoltaicas fora de florestas e áreas protegidas.” https://www.agroportal.pt/quercus-quer-centrais-fotovoltaicas-fora-de-florestas-e-areas-protegidas/
Público (Opinião). João Viveiros. “E se instalássemos painéis fotovoltaicos nos eucaliptais?” 23-03-2025. https://www.publico.pt/2025/03/23/azul/opiniao/instalassemos-paineis-fotovoltaicos-eucaliptais-2126785
Jornal de Notícias. “Mil sobreiros vão ser abatidos em Condeixa-a-Nova para projeto fotovoltaico.” https://www.jn.pt/4201340284/mil-sobreiros-vao-ser-abatidos-em-condeixa-a-nova-para-projeto-fotovoltaico/
Folha do Centro. “CDS/PP quer saber ‘verdadeiro custo’ do Parque Fotovoltaico no Vale do Alva.” 27-03-2025. https://folhadocentro.pt/cds-pp-quer-saber-verdadeiro-custo-do-parque-fotovoltaico-no-vale-do-alva/
Público. “Fogo de Pedrógão Grande é o mais mortífero das últimas décadas.” 18-06-2017. https://www.publico.pt/2017/06/18/sociedade/noticia/fogo-de-pedrogao-grande-e-o-mais-mortifero-das-ultimas-decadas-1776072
Público. “O que sabemos sobre as vítimas mortais?” 16-10-2017. https://www.publico.pt/2017/10/16/sociedade/noticia/o-que-sabemos-sobre-as-vitimas-mortais-1789044
Público. “Plano de intervenção na floresta ignora 400 mil hectares de eucaliptos abandonados e improdutivos.” 21-03-2025. https://www.publico.pt/2025/03/21/azul/noticia/plano-intervencao-floresta-ignora-400-mil-hectares-eucaliptos-abandonados-improdutivos-2126953
Universidade Nova de Lisboa (repositório). “O mais terrível inimigo: políticas florestais do Estado Novo.” https://research.unl.pt/ws/portalfiles/portal/106067830/O_mais_terr_vel_inimigo.pdf
Jornal de Notícias. “Savannah retomou prospeções em Covas do Barroso.” https://www.jn.pt/3186165023/savannah-retomou-prospecoes-em-covas-do-barroso/
IRCP. “It’s an energy addition, not an energy transition.” https://www.ircp.com/news/its-an-energy-addition-not-an-energy-transition/
janeiro, 2026 Romeu Curto


