Este é a chamada crónica da semana de Natal. Curiosamente, é assim chamada por ser a crónica que é publicada na mesma semana em que acontece o Natal. É giro ver como o mundo tem sempre tantas coincidências.
Por exemplo, deve ser ter sido uma grande coincidência que fez três amigos de Putin – Witkoff, Kushner e Dmitriev – encontrarem-se na Florida para decidir o futuro da Ucrânia. Também foram com certeza resultado de uma enormíssima coincidência os elogios exultantes de Alexander Dugin – um dos ideólogos de Putin – a um discurso de JD Vance sobre o futuro da América e do mundo. São coisas que acontecem, aleatoriedades do universo.
Há muitos anos, andava por aí um “best-seller” da literatura (digamos assim, à falta de outra categoria) portuguesa com o título “Não Há Coincidências”. Mas há. Querem ver que não foi coincidência a saída do casulo do militar “quem dá ordens aqui sou eu” Gouveia e Melo no mesmo dia em que calhou sair uma sondagem em que aparece em quarto lugar (Nunca sei se este candidato era vice ou meio almirante, porque sou ignorante em terminologia castrense).
Aposto dobrado contra singelo que é apenas uma coincidência (apesar de rimar com incompetência e com negligência) haver na semana do Natal uma dezena de hospitais sem o serviço de urgência (palavra que rima com as outras três e já possibilitaria fazer um soneto). Foi uma extraordinária coincidência que no dia da greve geral, há duas semanas, quase todos os serviços públicos estivessem fechados e quase todos os serviços privados estivessem a funcionar. Coisas com que o acaso nos espanta.
Coincidência e acaso, pois com certeza, é Portugal ter a habitação – no rácio com os salários – mais cara da Europa. Foi preciso mesmo muito azar para os preços das casas não terem aumentado tanto em outros países, e logo ficarmos nós com a fava desse bolo-rei (no sentido metafórico em que um T2 em Lisboa é mais caro que um palácio real na Europa). Coincidência, não há dúvida, foi Portugal ter ficado mais pobre que quase todos os países que entraram na União Europeia já no século XXI. Calhou eles enriquecerem mais, caso contrário, isso não teria acontecido.
Bem podem as almas positivistas afirmar que não há bruxas nem coincidências, mas a verdade é que foi preciso o meu Sporting ser bicampeão e ter representantes em órgãos da Liga para o ver empatar um jogo com um penalti inventado por magia aos 16 minutos do tempo de descontos.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


