Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Só com receita!

Escrito por Diogo Cabrita

O Movimento para a Democracia na Europa (DiEM), Berlim 2016, deveria apresentar até final deste ano uma série de propostas como a social-ecologia, o pós-crescimento e o pós-capitalismo e até ao momento ainda não o fez.
Este movimento é apoiado no nosso país pelo partido que mais cresceu à esquerda, O Livre, e propõem-se criar uma verdadeira alternativa, uma nova esquerda onde o pan-europeísmo se torne uma realidade. O objetivo é juntar europeus à volta de uma mesa metafórica digital tendo em vista discutir problemas comuns e por finalidade a apresentação de um manifesto pela democratização da Europa, assentando tudo isto em três pontos considerados essenciais: Europa descentralizada, o que maximiza a democracia local; Europa culta, incentivando a diversidade cultural dos seus povos e Europa transparente onde as decisões são tomadas pelos cidadãos através de escrutínio.
150 anos depois da publicação do primeiro volume do “Capital”, de Karl Marx, e 81 anos após a apresentação de Bretton Woods damos conta que o progresso se faz no território digital onde a nova nuvem pode ter matado o funcionamento tradicional de todos os mercados convencionais, e isto é notório no livro editado este ano e intitulado “Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo”, de Yanis Varoufakis.
Numa leitura rápida e na perspetiva de um impacto de algum pânico bíblico (final de um mundo e início de outro), o proletariado é substituído por precários e até os velhos capitalistas, burgueses e pró-burgueses, são sujeitos a determinadas tarefas impostas por sectores e mercados conhecidíssimos num gesto onde entram Musk, Yiming e Zuckerberg, percebendo-se que as dinâmicas tradicionais do capitalismo já há muito que não governam a economia.
O tecnofeudalismo tem uma forma manhosa, sofisticada e pior, pois este novo figurino é o antípoda daquilo que definiu Aristóteles, onde a ética, a moral e a felicidade quase desaparecem dado que este novo conceito assenta fundamentalmente em três vectores: Plataforma de suportes diversificados com vista a ganhar muito dinheiro; novo conceito de capital e por último o capital como mercadoria.
E a pergunta justifica-se: onde entra o Homem, onde está e de que forma permanece neste fundamentalismo calculado onde apenas o vassalo higienizado é parte da tecnologia existente? O sentimento, o romantismo e as reflexões de Marx desaparecem e o trabalho digno até agora feito pelo Homem passa a ser subserviente às novas técnicas feudais que, aos poucos, está a substituir o capitalismo convencional (tal qual ainda o conhecemos).
D. Quixote desaparece e o boçalismo de Sancho vem ao de cima, onde encaixa a teoria de baixa densidade que tem por missão a abordagem de um pequeníssimo número de questões, a tal que ganha seguidores, uns saudosistas, outros incautos, dando conta ainda da tentativa velada de agarrar espíritos livres e até outros que procuram insistentemente a libertação.
Neste mundo que olha para todo este labirinto com saudade, governado por tecnocratas e doidos à solta, onde maio pode ser em dezembro ou abril – novembro, salta à vista a frase de Sena «Liberdade, Liberdade, tem cuidado que te matam».
Caríssimo leitor, votos sinceros de festas felizes.

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Diogo Cabrita

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