Poderia começar esta crónica a escrever sobre reflorestação, espécies autóctones, ordenamento do território, sustentabilidade, educação ou falta dela, meios insuficientes ou a falta de coordenação e logística para os nossos heróis sem capa… Mas, isso será matéria para técnicos, especialistas e decisores, que tantas vezes parecem ausentes ou fechados nos gabinetes de Lisboa. Acham, talvez, que somos todos uns saloios, rudes, doente mentais, imprudentes de um orgulho teimoso em ser do interior. Mas é esse orgulho que nos mantém em pé! Porém, não me detenho aí! Quero escrever sobre o essencial: o ser humano.
Ano após ano, repetimos o mesmo ritual de dor. Arde o país, arde o distrito, arde o concelho, arde a aldeia, arde o coração de quem assiste. Como se fosse uma sina, como se a devastação fosse destino e não resultado da nossa inércia. No meio das chamas, há pessoas que perdem tudo: casas, animais, campos, memórias, pertenças de uma vida inteira…
Este ano, ainda no meio da época quente, no concelho da Guarda, perdemos mais, perdemos o nosso “Capitão”. Não o conhecia de perto, apenas de vista. Isso pouco importa, porque a grandeza de alguém não se mede na intimidade, mede-se no eco que deixa. O eco dele foi profundo. Todos falam dele como um homem bom, generoso, amigo de todos. Alguém que não precisava de títulos nem medalhas para ser referência. Um capitão da vida. Firme, presente, respeitado. Alguém que sabia estar, ouvir, ajudar. Um daqueles homens raros que, só por existirem, dão mais força à comunidade.
O seu desaparecimento não é apenas mais uma estatística. É um vazio que se abre. É um abraço que não se pode repetir. É uma ausência que corta fundo, porque quando um homem assim parte, a aldeia, o concelho inteiro fica mais pobre e a terra chora com quem nela vive. Agora, resta o silêncio pesado das ausências. A cadeira vazia ao serão, a voz que não se ouve mais na rua, o abraço que ficou por dar. E é esse silêncio que grita mais alto do que qualquer sirene.
É nestes momentos que a condição humana se revela em toda a sua fragilidade, basta uma rajada de vento, uma fagulha e toda uma existência pode ser virada do avesso. Vivemos como se fôssemos eternos. Mas não somos mais do que centelhas.
Recordo, então, o filme “O Clube dos Poetas Mortos”. Robin Williams, de pé em cima da secretária, ensinava aos seus alunos que a vida não se pode adiar. Que o tempo não é infinito. “Carpe Diem”, aproveitem o dia, aproveitem o momento. Porque o amanhã, por vezes, não chega. A felicidade não se herda, não se compra, não se pede emprestada. Constrói-se, aqui e agora, nas escolhas que fazemos e nas mãos que estendemos.
Talvez essa seja a última lição do “Capitão”, viver com sentido, com bondade, com coragem, com alegria. Não apenas sobreviver, mas arriscar-se a ser farol, mesmo num tempo de tanta sombra.
Que os decisores aprendam com as cinzas. Que sintam vergonha quando muitos disseram/dizem, mesmo locais, que se investe demasiado nas nossas queridas aldeias, pelo contrário deveríamos investir muito mais para os que estão e os que podem regressar.
Que os populares e os bombeiros sejam lembrados sempre na sua valentia e coragem. Mas, sobretudo, que nós, enquanto comunidade, não desperdicemos o dom frágil da vida. Porque só assim, aproveitando o instante, poderemos transformar lamento em esperança.
As minhas sinceras condolências e solidariedade a todas as famílias e amigos que estão a sofrer.


