‘Tá calor, hã?

Estava em Portugal com quase 40 graus, fui à Lituânia, onde estavam 22, regressei a Portugal onde continuam a estar quase 40 graus. E depois ainda perguntam por que é que o Chega tem mais votos e a Lituânia melhores salários.
Muito calor dá cabo da mioleira, e quando o corpo também parece derreter, um tipo perde a paciência e ouve as primeiras baboseiras que alguém disser. «São precisos menos imigrantes». Ó Matias, são precisos é menos graus nesta calina malvada. «Os estrangeiros são uma ameaça». Ó Pinto, ameaça é transpirar tanto que um gajo já cheira a suor quando sai do duche. Façam é alguma coisa contra isso.
No mundo dos Verões fresquinhos, trabalhar não mata nem amolenta. (Nas democracias, costuma ser assim. Nas ditaduras, acontece mais frequentemente morrer-se em ditos campos de trabalho.) O povo sai de casa de manhã, com um casaquinho, sabendo que, no máximo, à tarde pode chover ou fazer um solzinho.
Num dos dias da minha visita báltica, o clima disparatou e chegou a 30 graus. Os amigos locais diziam, «bem, hoje é que está um calor insuportável». Lembrei-lhes que, para as civilizações avançadas do olival e da azeitona, 30 graus é o fresco numa manhã de Verão. Ao fim da tarde, para não serem pieguinhas, choveu que se fartou. No dia seguinte, lá foram trabalhar todos contentes.
Um dos problemas do calor desmesurado é o difícil equilíbrio entre o decoro e a comodidade. Pode-se ir trabalhar de calções? De biquíni? Em princípio, se não se for trolha ou artista, não pode. Por isso, as oito horas do expediente são passadas entre a destilação corporal e o desespero de saber que no fim do dia, espera uma noite tropical em que mal se consegue dormir. Nos países do arrefecimento vespertino, trabalha-se bem e o fim do dia traz descanso, sossego e brisa. Na caloraça do mundo atlântico-mediterrânico não adianta, que o calor não larga.
Por isto tudo é que o país não avança nem melhora. Os pobres não têm vontade de trabalhar porque não tem como se livrar da canícula, os ricos não lhes podem pagar melhor porque a piscina e o ar condicionado acabam por ser luxos caros.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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