É caso para dizer que nunca o 25 de Abril se voltou a escutar assim desde 1974. Esta viagem a Portugal da reportagem radiofónica mais completa do dia da “Revolução dos Cravos” – uma iniciativa promovida pela Comissão dos 50 Anos do 25 de Abril – vai começar no próximo domingo 25 de janeiro, no Rádio Altitude.
Os sons da Liberdade vão ocupar a casa da rádio local mais antiga do país para uma escuta presencial e coletiva. «Trata-se de uma visita à rádio, como se fôssemos ao cinema ou ao teatro, para escutar em conjunto, na redação e nos estúdios, gravações históricas das bobinas originais», como explicam os curadores Isabel Meira e André Cunha, acompanhados neste projecto por Adelino Gomes, um dos repórteres no terreno em 1974 e que a 25 de janeiro estará na Guarda. Pela primeira vez desde a sua emissão original há mais de meio século, o trabalho “… e temos o POVO…”, dos jornalistas Pedro Laranjeira (1945-2015), Paulo Coelho e Adelino Gomes, voltará a estar “no ar”, na íntegra, na referida sessão de escuta coletiva com a presença dos dois autores vivos. Depois de ter sido apresentada nas Ruínas do Convento do Carmo, por altura das comemorações dos 51 anos do 25 de Abril, no ano passado, a reportagem vai agora dar a volta ao país em 2026, sendo «o espelho sonoro que nos faz (re)entrar no dia que mudou as nossas vidas».
Na página oficial das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril é explicado que «do baú da rádio renascem do silêncio as fitas originais onde ficou gravado o dia 25 de Abril de 1974. Uma oportunidade única para escutar o som da liberdade falada e inaugurada nas ruas pelas palavras do povo, dos militares e dos jornalistas. Do Golpe à Revolução, do Terreiro do Paço ao Largo do Carmo, do amanhecer incrédulo ao romper da coragem, escutamos as vozes, o motor dos carros de combate, os passos em corrida, o rodopiar do helicóptero, as comunicações via rádio, os gritos, os vidros partidos, as perguntas e as respostas, os tiros, o megafone dos capitães, a agonia do regime, as dúvidas e as vontades, o assombro, a festa, a ideia de futuro, rua a rua».
É também referido que «quando, no Largo do Carmo, entre o meio-dia e a uma da tarde, na primeira conferência de imprensa livre, o alferes Carlos Beato sussurrou ao microfone da rádio e a Salgueiro Maia “… e temos o povo…”, interrompendo o “capitão de abril” enquanto este enunciava todas as forças que estavam do lado dos revoltosos», ficou registado para sempre o momento em que o golpe de estado começava a ser uma revolução pendurada nas árvores.
Esta expressão “… e temos o POVO…” é o ícone sonoro que capta a essência das quase quatro horas da primeira e mais completa montagem, do início da manhã de 25 de Abril de 1974 no Terreiro do Paço até à rendição de Marcelo Caetano, incluindo testemunhos, entrevistas e conversas que nunca mais voltaram a estar “no ar” desde que foram emitidas naquelas madrugadas iniciais, há quase 52 anos, no programa “Limite”, da Rádio Renascença.
Sublinhe-se que Paulo Coelho, Adelino Gomes e os herdeiros de Pedro Laranjeira vão oferecer simbolicamente este histórico documento radiofónico à Comissão dos 50 anos do 25 de Abril, que o irá depositar no futuro Arquivo Nacional do Som, para preservação e fins de investigação. Os autores consideram que «estas bobinas não constituem apenas uma peça cimeira da história da rádio e do jornalismo em Portugal, mas são igualmente um exemplo raro, em todo o mundo, de um documento sonoro que ecoa tão de perto e de forma tão continuada e prolongada o dia decisivo de uma revolução».
O projeto “… e temos o POVO…” ganhou corpo como epílogo do ciclo de escuta “25 de Abril, sempre no ar – Les oeillets de la radio” que desde fevereiro de 2024, no festival francês Longueur d’ondes, um dos maiores do mundo dedicados à rádio, deu à escuta alguns dos grandes momentos radiofónicos criados antes, durante ou inspirados pela “Revolução dos Cravos”. A partir do dia 25, a viagem começará na Guarda (Rádio Altitude) porque é na Guarda – e no interior – que está “no ar” a rádio local mais antiga do país. O projeto prevê a realização de mais 12 sessões mensais de entrada livre e acessíveis em língua gestual portuguesa em todo o território continental e ilhas. Até Junho de 2026 estão já confirmadas, para além da Guarda, sessões no Museu Nacional Resistência e Liberdade (Peniche), em Ponta Delgada e Angra do Heroísmo, Palmela, Lisboa, Santarém, Peniche e Porto. No segundo semestre do ano, a reportagem mais completa do 25 de Abril vai continuar a escutar-se de norte a sul do país e com escala planeada para a Madeira.
A escuta presencial e coletiva no Rádio Altitude vai acontecer a partir das 14h30, no domingo 25 de janeiro. A entrada é livre, sujeita a inscrição prévia em altitude@altitude.fm ou através dos telefones 271221995 / 927226614.



