Opinião de António Godinho Gil: Ngetal*

1. O icónico filme “Garganta Funda”, saído em 1972, foi estreado em Portugal há 50 anos. Rapidamente se tornou um ícone do cinema porno. O único cinema verdadeiro, segundo Jean Luc Godard. Ficaram famosas as extensas filas à entrada dos cinemas e o nome dado à fonte “anónima” usada pelos dois jornalistas do “Washington Post” que denunciaram o caso “Watergate”. Num documentário de 2005, intitulado “Por Dentro da Garganta Funda”, são reveladas as atribulações da produção do filme, da sua exploração pela máfia e, sobretudo, a história subsequente de Linda Lovelace, a protagonista. Que veio a integrar o grupo Women Against Pornography, aliando-se a grandes nomes do feminismo norte-americano, como Gloria Steinem, Andrea Dworkin e a advogada Catharine MacKinnon. A sua autobiografia, intitulada “Ordeal” (“Provação”), provocou ondas de choque, ao ter alegado que a sua participação na película foi feita sob coacção. O seu activismo foi tão polémico quanto o filme que a celebrizou. No final da vida retirou-se para uma existência tranquila devotada à família.
2. Muita gente resolveu fazer da chamada “causa palestiniana” um tema central do repertório da indústria do protesto. O engagement é feito nas universidades, nas redes sociais, nos media, nos partidos da esquerda extremista e democrática. Alguns partidos, como no caso do BE, tornaram-se mesmo monotemáticos, abdicando de olhar para a realidade nacional, em prol de uma cruzada com contornos antissemitas. Que inclui o cancelamento de tudo o que implique a participação de cidadãos israelitas, do desporto à música, da literatura às empresas. O panorama é assustador. Os idiotas úteis que andam por aí a hastear a bandeira palestiniana, destilando ódio, sedentos de causas com que possam atacar o Ocidente, não têm consciência de que estão a chamar fantasmas da história que se julgava extintos.
3. Enquanto crescemos, parece que estamos instalados num presépio panorâmico. Que durará para sempre. As figuras desse presépio como que delimitam o nosso mundo. E o nosso olhar é do tamanho do que elas nos mostram. De certa forma, as figuras estão lá para velar pela tranquilidade da nossa eterna meninice. Estão lá como figuras sequestradas pela paisagem, sob um sol negro, como num filme de Tarkovski. É uma galeria impossível de deslocar, ou de apagar. São as sentinelas de um amor que não nos abandonará nunca. Mas um dia, percebemos que esse presépio é como um precioso mandala tibetano. Que um dia é levado pelo vento. Todavia, é a persistência de alguns dos seus desenhos que não o deixa olvidar. Como o rasto de uma auréola de doçura, que quase pede desculpa pelo ardor com que brilha.
4. O que distingue um intelectual de esquerda de um intelectual de direita? A resposta é complexa e certamente já foi tema de inúmeras teses. Vou tentar pegar na questão de duas maneiras: a relação com o objecto e a relação com a realidade. No primeiro caso, o intelectual de esquerda privilegia a estrutura. O de direita põe o foco na agência, no actor. No segundo caso, o intelectual de esquerda é um projectista de engenharias sociais. O intelectual de direita centra-se na reposição constante do interesse próprio dos indivíduos, sabendo que ele constitui o maior benefício para a sociedade. O de direita não receia o caos, o acaso, embora não descure a ordem. O de esquerda desenha um mundo novo com régua e esquadro, onde o acaso é eliminado. A ordem não serve para proteger os indivíduos, mas a estrutura. Em suma, o intelectual de esquerda desdenha o senso comum. O de direita descobre nele sempre um novo motivo de inspiração.
5. Chega um tempo em que a memória se torna um fardo pesado, confuso. Com esquinas secretas e palavras abandonadas. Um catálogo desordenado, em que o fio de Ariane se perdeu há muito. Às vezes assusta. Outras requer uma visitação generosa. Que não busca um sentido, mas um lençol estendido até aos confins da alma. Nesse momento, adornar como um pirata, antes da abordagem e do saque. Não querer nascer. Agarrar todas as armas para me salvar da morte e do tempo. Atravessar a linha mais curta entre dois pontos fatais e inevitáveis. Como numa extensa digressão, emaranhada, tortuosa, furtiva, não rastreada. Furar o cerco. Despistar o tempo. Obrigar a morte a ocultar-se nos relógios. Respirar.

* No calendário vegetal celta, designa o junco

** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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