Cara a Cara

«Pensar na poesia é pensar em liberdade, declamar é uma forma de se libertarem»

Escrito por Luís Martins

P – Que projeto é “Livres na Prisão”, que envolve os reclusos do Estabelecimento Prisional da Guarda e como surgiu?

R – “Livres na Prisão” é uma oficina de declamação de poesia em que participam alguns reclusos. A atividade resulta de uma parceria entre o município da Guarda, o Agrupamento de Escolas Afonso de Albuquerque e o Estabelecimento Prisional da Guarda. Luísa Fernandes, professora do Agrupamento de Escolas Afonso de Albuquerque, acompanha-me nesta caminhada. A sua dedicação e compromisso são inquestionáveis. “Livres na Prisão” surgiu de uma atividade que dinamizei no Estabelecimento Prisional da Guarda, na qual interpretei alguns poemas de autores consagrados e lancei o desafio aos participantes para que escrevessem um poema coletivo. Daí resultou “Liberdade”, que tive o gosto de declamar no programa “Reflexo Imperfeito”, da Rádio Altitude. Portanto, a atividade deu origem a um projeto de continuidade, a oficina de declamação “Livres na Prisão”. Todas as pessoas têm talento e capacidade para criar, todos devem ter mais do que uma oportunidade e o hiato que existe entre estar deste lado ou do lado de lá é muito ténue.

 

P – Como decorreu a preparação do espetáculo que vai ter lugar no TMG? Qual foi o envolvimento e interesse dos reclusos?

R – Os participantes são fantásticos, têm muito talento e demonstram elevados índices de compromisso com a oficina. Interpretámos os poemas e promovemos as competências leitoras nas salas de aula do estabelecimento prisional, a fase de declamar ocorreu no parlatório e juntámos a poesia e a música na sala dos instrumentos musicais. Nos ensaios desfilaram sorrisos francos, vozes de confiança, clamores de inclusão, assim como muita emoção, esperança, alegria, imaginação, imensidão e liberdade. Como nos ensinou o poeta espanhol António Machado, “o caminho faz-se caminhando” e nós fizemos o nosso. Atuar no Teatro Municipal da Guarda é a concretização de um sonho, mas aquilo que é verdadeiramente importante neste tipo de projetos é o processo.

 

P – O que vai acontecer em palco? Que autores foram escolhidos e porquê?

R – Teremos poesia, música e vozes, num total de 90 minutos. Os autores e os poemas foram escolhidos por mim, sendo que os mesmos já passaram no programa “Reflexo Imperfeito”. São autores que admiro e que me têm acompanhado ao longo da vida. Tenho a certeza que os participantes transmitirão a mensagem e provocarão sentimentos na plateia, pois estão ligados, emocionalmente, aos poemas. Sentem os poemas e esse é o critério principal.

 

P – De que forma é que o projeto “Livres na Prisão” contribui para o bem-estar dos reclusos?

R – A oficina de declamação é um autêntico espaço de revelação, de libertação e de superação. Promove a literacia e o pensamento crítico. A arte e a cultura, em ambientes difíceis e de antagonismo, diminuem os riscos psicossociais, a vulnerabilidade e a reincidência. A poesia e a declamação constituem uma espécie de abrigo, na qual os participantes se sentem felizes e intocáveis. Pensar na poesia é pensar em liberdade. Declamar é uma forma de se libertarem. Além disso, acreditam que a sua participação na oficina seja um motivo de orgulho para a família. Na realidade, veste-se de igual glória aquele que cai e se levanta de novo.

 

P – O que espera do espetáculo desta quinta-feira no TMG?

R – Espero que os participantes desfrutem o momento, se sintam verdadeiros artistas e que o auditório esteja repleto para os receber e ovacionar. São vencedores, fizeram um trabalho notável. É um privilégio trabalhar com o Adelino Ribeiro, Carlos Miranda, David Santos, Décio Sousa, Fernando Félix, José Mosquera, Lino Martins, Rui Cunha, Rui Pereira, Sérgio Barbosa e Severiano Moreira.

 

PERFIL:

Nome: Alexandre Manuel Nunes Gonçalves

Idade: 49 anos

Naturalidade: Guarda

Currículo (resumido): Licenciado em Relações Públicas e pós-graduado em Reabilitação Patrimonial. É técnico superior no Município da Guarda, membro do Grupo de Intervenção Reflexo Imperfeito, Presidente do Conselho Fiscal do Centro Cultural da Guarda e Presidente da Confraria do Cabrito na Brasa – Sabugal. Colaborador da Rádio Altitude e do jornal Cinco Quinas. Editou quatro livros e é autor representado em várias dezenas de antologias de poesia e coletâneas de conto.

Livro preferido: “Livro do Desassossego”, Fernando Pessoa

Filme preferido: “Braveheart”, Mel Gibson

Hobbies: Declamar, escrever, fazer trabalho voluntário e cozinhar

Sobre o autor

Luís Martins

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