P – O que o levou a escrever o livro “O Interior é Razão – Abolição das portagens uma história de luta com final feliz”?
R – Este livro é mais um imprevisto na minha vida, pois nasce de mais um acaso. Tudo aconteceu no decorrer de sessões de apresentação do meu livro “Inverno do Futuro – Reflexões, experiências e sentimentos em tempo de vida suspensa”, em que algumas amigas e amigos (o Luís Baptista-Martins é um deles), camaradas e até leitores que não conhecia, me perguntaram se ainda não tinha pensado escrever especificamente sobre o processo de luta pela reposição das portagens nas A23, A24 e A25. Nesse livro, eu já dizia: «As portagens na A23 e na A25 e a luta pela reposição das SCUT davam, só por si, para escrever um livro de muitas páginas, tal é a sua diversidade, riqueza e dimensão no tempo, nos pormenores e na dimensão política, económica e social». Confesso que, quando me foi lançado esse desafio, fiquei com dúvidas, pois, ao escrever sobre o tema, poderá haver quem, errada, mas legitimamente, pense e diga que me estou a colocar em bicos de pés, arvorando-me no protagonista de uma luta que, desde já esclareço, não teve um mentor, um líder, um estratega e, porque assim foi, não é de um, nem de dois ou de três, é de todos os elementos que desde 2004 lutavam e de todos os que pertenceram e ou ainda pertencem à Plataforma P’la Reposição das SCUTs na A23 e A25. Esta foi a capacidade de juntar muitas vontades, pessoas, entidades e organizações com sensibilidades, ideologia e filiação partidária distintas e em representação de interesses diversos, mas que estavam unidos no objetivo de pôr fim a um custo de contexto que, não sendo o único, constituía um imposto cruel sobre a atividade económica e social do interior do país. Este foi o foco e dele nunca nos desviámos.
P – O que ficou por contar na luta contra as portagens nas ex-SCUT A25 e A23?
R – Este livro não é o livro da história da luta pela abolição das portagens. É, tão só, um contributo para o conhecimento da luta pela reposição das SCUT. A história fica para os historiadores, coisa que não sou. Ainda assim, creio que o livro documenta, com rigor, muito do que foi feito, das iniciativas, das lutas, das táticas e das estratégias e do que foi preciso fazer junto das instituições, aliando diálogo e negociação a uma ação de mobilização das pessoas, dos trabalhadores, dos empresários e da população em geral. Por opção, centrei-me no que de importante foi feito, valorizando os afetos, as soluções solidárias e consensuais, e deixei de fora os aspetos menos nobres da ação político/partidária, as manobras de diversão e os “fait divers”. Por isso, no livro eu digo: «Esta foi uma luta onde a importância dos afetos se tornou essencial. Não, não era suposto que pessoas tão diversas, tão heterogéneas e com representação de interesses dispares pudessem construir entre si uma plataforma sólida nos entendimentos e que a partir daí tivesse sido possível estabelecer uma relação desinteressada assente numa sólida cumplicidade e partilha. Esta experiência é riquíssima do ponto de vista das relações humanas, é transcendente no plano da solidariedade entre pessoas e é um exemplo que pode e deve ser replicado na exigente batalha pelo interior que, reafirmo, precisa de um safanão cívico».
P – O que ganhou a região com o fim das portagens, que foram abolidas a 31 de dezembro de 2024?
R – Os dados dizem-nos que o fim das portagens nas ex-SCUT dá nova força às economias locais e ao turismo e quem o disse foram presidentes de Câmara, empresários e comerciantes do Norte e Centro, pois, segundo eles, já se notam melhorias ao fim deste ano sem portagens. Por outro lado, a perda de receitas da Infraestruturas de Portugal, pelo fim das portagens de janeiro a junho de 2025, foi de 42 milhões de euros e não os 150 a 200 milhões de euros que eram apontados. Ora, se tivermos em linha de conta os ganhos na economia local, poderemos estar a falar de um saldo económico, financeiro e social positivo.
P – Acha que as portagens são um assunto arrumado, ou vão regressar, mais cedo ou mais tarde?
R – Vamos ter de continuar atentos, porque os centralistas nunca desistem, e nunca fiando, pelo que “cautelas e caldos de galinha” nunca fizeram a mal a ninguém. Estar alerta e vigilante é o que se impõe. Também por isso a Plataforma deve continuar a existir e a intervir. É que a luta pela reposição das SCUT, com a abolição das portagens, e o papel da Plataforma mostram o quanto são importantes a convergência e a unidade das organizações sociais e económicas e, acima de tudo, das populações em torno de objetivos que são comuns. Neste sentido, volto a insistir na importância e necessidade da criação de uma plataforma democrática, diversificada, abrangente, proponente e mobilizadora de todos os que intervêm e defendem os valores da democracia e querem o desenvolvimento económico, social, cultural e ambiental do interior para promover a coesão territorial do país. No entanto, esta plataforma não pode e não deve substituir o papel indispensável dos partidos políticos e das soluções de convergência, sendo que o desenvolvimento do interior só é possível com políticas dirigidas para o ser humano. Mas não há plataforma, nem força partidária ou governo que substitua a mobilização e a luta das populações e, acima de tudo, da classe operária e dos trabalhadores.




