Cara a Cara

«Daqui a 10 anos não existem pastores na Serra da Estrela»

Escrito por ointerior

Entrevista a Manuel Marques, presidente da direção da ANCOSE

P – Foi a primeira vez que houve mais de um candidato nas eleições para a direção da ANCOSE. Conseguiu 270 votos, contra 72 da lista opositora e inicia agora o último mandato. O que pretende fazer?
R – O ato eleitoral correu bastante bem e os associados votaram bem. São mais quatro anos, é o meu último mandato que vou fazer para mais tarde ser substituído por alguém que me saiba representar. Temos 600 associados e mais de metade foram votar, uma margem de votação que nunca aconteceu, superando os 50 por cento. Ganhou uma lista de continuidade e de juventude. Dirijo a ANCOSE desde 2004 e a associação já passou por muitas fases. Neste período pagámos todas as dívidas, empréstimos bancários, retiramos a quinta de Celorico da Beira e o apartamento das penhoras e hipotecas. O património da ANCOSE está completamente limpo e assim vai continuar.

P – Tem agora a ambição de criar uma “loja” na ANCOSE.
R – Pretendo continuar com os protocolos com os municípios e arranjar mais parcerias. Há uma ideia que já tem projeto feito, é uma loja promocional dos produtos da fileira de Serra da Estrela, localizada no topo nascente dos atuais serviços administrativos da ANCOSE. É a única coisa que nos falta fazer em termos de edificação. Já fizemos um cento de testagem, o único do país devidamente licenciado. Vamos trabalhar para os pastores e vamos dedicar-nos a trabalhar no apoio aos pastores. Quanto à loja de produtos da fileira Serra da Estrela, estou a perspetivar que esteja a funcionar no final do ano, perto do Natal de 2026. Estamos a trabalhar nesse sentido e penso que vai correr bem.

P – No último trimestre de 2025 assistimos ao fecho do único lavadouro da lã em Portugal, na Guarda. É um problema que tem afetado os pastores, que consequências provoca este encerramento?
R – É lamentável que uma empresa ligada ao setor da ovinicultura feche, mas, na minha modesta opinião, também não afeta assim tanto os pastores. Não é o lavadouro que compra a lã aos pastores, o lavadouro apenas a lava. Eu não tenho memória de que a empresa da Guarda tivesse comprado um quilo de lã, pelo menos desde que estou na ANCOSE. São sempre terceiros a comprar a lã, nomeadamente a Lourival, que não sei se vai continuar a comprá-la. Mas ainda assim, vamos começar a trabalhar noutros setores para ver se arranjamos um parceiro que nos fique com a lã. E estamos a tentar preparar uma forma para que, mesmo que não comprem a lã aos pastores, lhes seja dada uma compensação pela lã não comprada. Nós pagávamos ao pastor 1,80 euros por quilo e a nós pagavam-no-la a dois euros, sendo que com esse valor fazíamos a recolha, a seleção, limpeza e o transporte para o lavadouro. A ANCOSE tem um avultado prejuízo na compra da lã aos associados, mas é para eles que trabalhamos e é para isso que estamos cá. Correu bem durante cinco anos e vamos agora ver o futuro, para o qual já estou a trabalhar. Tenho de arranjar alguém para, pelo menos, tirar a lã, não quer dizer que chegue a 1,80 euros, eventualmente não, mas quero fazer uma distribuição uniforme por todos os pastores.

P – A pastorícia é uma profissão cada vez mais envelhecida ou têm aparecido jovens pastores?
R – A idade média dos pastores é superior a 65 anos e entradas são poucas ou nenhumas. Alias, reuni com o ministro da Agricultura e a ministra do Ambiente porque querem atribuir um vencimento mensal de 700 euros a cada jovem durante três anos. Eu disse-lhes que se o fizerem vai entrar um e desistirem 20. Não vou baixar os braços, nem calar a minha voz, para que quem já está instalado e já é pastor possa receber esses 700 euros. O que é que interessa à região admitir um jovem pastor e desistirem dez dos já existentes? É uma catástrofe.

P – De que forma podemos cativar os jovens para este setor e ao mesmo tempo manter aqueles que já cá estão?
R – Independentemente dos apoios que possam vir do Estado ou das Câmaras Municipais, se não houver um investimento a sério na área da ovinocultura e uma modernização vejo um futuro muito negro. Para se ser pastor não se pode ir à praia, não se pode ir ao domingo para a festa nem ir para a noite. Temos de estar ali com compromisso para com o rebanho e a juventude não quer isso. A juventude quer outras coisas. Conheço alguns casos de avós que têm netos e filhos pastores e não querem saber disso para nada – com casa montada e tudo preparado para seguir atividade. Não dá para ir para ralis, para a praia ou para as festas. As ovelhas têm de ver o dono.

P – Daqui a uns anos será um setor em risco?
R – Deus a ouvisse! Daqui a 10 anos não existem pastores na Serra da Estrela, nem ovelhas e isso preocupa-me. É recorrente a diminuição do efetivo animal na região da Serra da Estrela.

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