A Coficab Portugal continuou a ser uma das maiores empresas do distrito da Guarda em 2015, sendo apenas ultrapassada pela mega empresa Águas de Lisboa e Vale do Tejo, entretanto extinta. João Cardoso, o seu diretor-geral, justifica o desempenho com a aposta na inovação e um crescimento «saudável» dos resultados financeiros. Como entraves, aponta a distância relativamente aos clientes e sobretudo a falta de mão-de-obra. «Passámos do tempo em que não havia empresas para fixar pessoas da região para um tempo em que não há pessoas para fixar empresas na região», alerta o responsável.
P. – A Coficab voltou a ser, em 2015, a empresa com a maior faturação da região. A que se deve esta liderança?
R. – A COFICAB é uma empresa que aposta na Inovação como motor de crescimento. Isto leva à introdução constante de novos produtos, usualmente de maior valor acrescentado (logo mais favoráveis ao aumento do volume de vendas) assim como a uma penetração cada vez maior em produtos especiais usados nos automóveis.
No ano de 2017 planeamos ter na Coficab Portugal o Portfolio de Produtos mais Completo para o mercado automóvel que alguma fábrica a nível mundial pode oferecer aos seus clientes.
P. – E 2016 como foi? Já nos pode adiantar alguma coisa em termos de faturação e exportações?
R. – O Ano de 2016 foi muito semelhante ao de 2015, tendo as vendas alcançado um valor acima dos 190 milhões de euros e do qual cerca de 95% são para exportação (ou seja, perto de 180 milhões das vendas foram para exportação). A nível de Grupo, o ano de 2016 foi marcante para a nossa empresa pois assumimos a liderança a nível Mundial no nosso sector, com um share próximo dos 18% do Volume Mundial.
P. – Qual é o retrato da empresa no final do ano que terminou (número de trabalhadores, clientes, balanço)?
R. – O ano de 2016 fechou com 492 trabalhadores. A nível de clientes, a Coficab Portugal tem uma distribuição muito diversificada com mais de 100 clientes em mais de 30 países como destino dos nossos produtos. Como referir anteriormente, o ano de 2016 teve também um resultado muito positivo, tanto a nível de vendas como de resultados financeiros. O crescimento está a ser muito saudável, pois muitas vezes tem que se sacrificar a Qualidade do negócio (isto é, a margem) para se crescer em Volume. Como resultado desta estratégia de Inovação permanente em produtos e Processos, que está no ADN da nossa empresa, temos conseguido crescer em ambas as vertentes do negócio
P. – Quais são os principais entraves ao negócio da Coficab Guarda?
R. – O principal e que condiciona de forma irreversível o tamanho da Empresa é a localização Geográfica, na Guarda. Ou seja, a distancia entre a produção e os clientes. Numa Indústria que exige entregas duas a três vezes por dia, estar a milhares de quilómetros do ponto de uso do produto que se fabrica, torna a situação difícil e custosa, e onera os custos de produção. Com as sinergias que temos a nível de grupo temos aliviado um pouco este fardo usando as nossas operações em outros países como Centros de distribuição. Mas isto tem um custo importante.
Depois, temos os entraves usuais das empresas que estão localizadas em Portugal: Custos Energéticos pouco competitivos, carga de impostos muito elevada, Administração e Fiscalização “hostil”, Legislação Complicada/Burocratizada e instável, Regulamentação excessiva. Não estou a falar de dados absolutos mas comparativos, pois se em todos os países a situação fosse igual, o “jogo” era justo… O grande problema é que outros países jogam com outras regras o mesmo jogo e isso dificulta-nos imenso a vida, principalmente em termos competitivos, e nós temos de ser competitivos pois só assim podemos assegurar o futuro da empresa e dos postos de trabalho que ela cria na região. A somar a estes problemas nacionais temos os locais, como a falta de mão-de-obra especializada e que neste momento se estende já à mão-de-obra geral, devido ao despovoamento da região de pessoas em idade ativa.
P. – A empresa já atingiu o seu zénite em termos de crescimento?
R.- Será muito difícil crescer mais que os valores atrás mencionados, tanto em termos de faturação como de número de trabalhadores. No nosso sector (fios para automóveis) a Coficab Portugal é já uma empresa bastante maior que a média do mercado.
P. – Como chega a esta conclusão?
R. – A Coficab Portugal está limitada ao fornecimento de fios especiais para o mercado automóvel, pois os produtos de grande volume e que representam 85% do consumo total, são produzidos localmente, isto é, em unidades próximas das fábricas de destinos, dos clientes. Como referi antes, esta não é a situação da empresa que temos na Guarda e que nos leva a concentrarmo-nos em Nichos de mercado. Por definição nichos, são mercados especiais, diferenciados, mas de baixo volume. A empresa já explorou quase até à exaustão os nichos disponíveis.
P. – Como perspetiva o futuro da Coficab na Guarda?
R. – Prevejo que num futuro próximo, de 3 a 5 anos, a empresa se mantenha no nível atual. A Coficab Portugal é uma unidade estratégica dentro do Grupo Coficab que, além da produção, temos baseado na Guarda uma quantidade importante de Serviços de apoio ao Grupo. A intenção é manter esta unidade como unidade Piloto em novos produtos e processos, sendo essa dinâmica determinante para a manutenção da Empresa na Guarda.
P. – Como vê o dinamismo empresarial da região?
R. – Bastante parado e pouco inovador. As razões que levam a isso seriam tema de debate de várias horas, começando pela Educação, abandono total da região pelo poder Central, demografia…
P. – E que comentário pode fazer ao despovoamento?
R. – É um fator altamente preocupante, ou mesmo o mais preocupante que uma região pode enfrentar. Passámos claramente do tempo em que não havia empresas para fixar pessoas da Região, para um tempo em que não há pessoas para fixar empresas na região. A situação anterior era má, mas com trabalho e vontade poderia ser resolvida ou minimizada. A situação atual, pode levar a um ponto de não retorno. Ao contrário de alguns comentários do tipo “que venham as empresas, que depois as pessoas aparecem”, o mundo real não é assim. No mundo real uma empresa faz um estudo prévio para se localizar num determinado local e decide com base no que encontra e não com base em cenários futuros. Sendo o Responsável de Operações do Grupo , participo de forma ativa e decisiva na escolha dos locais onde estabelecemos novas Operações. Um dos principais fatores de decisão para um Empresário Individual ou para uma Corporação (como é o caso da Coficab) decidir fixar-se ou não numa região é a disponibilidade de mão-de-obra, em quantidade e qualidade. Se neste item o resultado da análise for negativo, a decisão é só uma… Penso que a Guarda está numa fase decisiva neste aspeto e que se nada for feito para inverter a tendência atual, dentro de uma geração poderemos ter a nossa cidade transformada numa pequena vila do interior. A minha opinião, e que sempre transmito quando por altura de eleições temos visitas de políticos, é que o Governo deve promover a deslocalização de alguns serviços públicos ou mesmo de empresas públicas para as cidades do interior, a fim de evitar o despovoamento cada vez mais acelerado das vilas e cidades do interior.


