Histórias para ler à sombra é uma colectânea de oito contos que saiu a público em Junho do ano passado, em alturas em que se começa a apreciar uma boa leitura ao ar livre, numa qualquer tarde de Verão. A compilação é da responsabilidade da D. Quixote e reúne textos de vários autores de expressão lusófona, vultos mais ou menos conhecidos pelos leitores portugueses. Com excepção de dois, todos os outros ou são inéditos e por isso nunca impressos, ou tinham sido dados a conhecer há bem pouco tempo, por via de publicações periódicas.
João de Melo é o contista que abre a obra com “O Gémeo e a Sombra”, onde o narrador exprime a nostalgia que sente pela ausência do seu gémeo, morto à nascença, ao questionar existencialmente se ele será um outro dentro do seu próprio corpo. Foi publicado ineditamente a 7 de Agosto de 2002 no Jornal de Letras, Artes e Ideais.
Segue-se um conto retirado da obra O Burro em Pé (1979) de José Cardoso Pires intitulado “Os Reis-Mandados”, que narra as aventuras de um menino à procura de trabalho a mando do pai e que se confronta com outras crianças que inocentemente jogam ao “Rei-manda”. Tudo isto vai motivar uma mistura de sentimentos como raiva, pena, vergonha e também amizade.
A terceira narrativa, que já havia sido tornada pública na Primavera de 2003, na revista Tabacaria, nº 11, é da autoria de José Eduardo Agualusa, escritor angolano. Com o título “Catálogo das Sombras” conta as peripécias do narrador, coleccionador de obras apócrifas reunidas no que ele chama de biblioteca monstruosa, para descobrir a verdadeira história do livro Catálogo das Sombras, supostamente de Alberto Caeiro, mas sem um único verso que fosse do heterónimo de Pessoa.
Lídia Jorge, Mafalda Ivo Cruz e Teolinda Gersão são as três mulheres que juntam as suas produções literárias a esta publicação, respectivamente com os contos “História de Coiote”, texto inédito escrito para a revista Escritor, “A Vida é Sonho”, aqui publicado pela primeira vez, e “O Cão”. O primeiro retrata a enternecedora história de um cão roubado à conta da mentira de ter sido mortalmente atropelado. Os donos, não desistindo da alegria que o animal trazia à casa, seguem todas as pistas para o recuperar, fazendo-se assim uma vénia à amizade entre o homem e o fiel canino. Mafalda Ivo Cruz no seu conto “A Vida é Sonho” lança no ar a ideia de que a realidade e o sonho trocam às vezes de sítio, ao mesmo tempo que vai deixando adivinhar sérias críticas à sociedade de hoje. “O Cão”, originalmente impresso na revista Magazine Artes, nº 6, em Maio do ano transacto, mostra como as pessoas podem ser, não poucas vezes, verdadeiramente injustas umas com as outras, ao relatar a vida de um marido dedicado que tenta a todo o custo remediar as limitações da sua cega esposa, que injustamente o trata como um cão de companhia. O desfecho é imprevisível.
O penúltimo texto, de uma simplicidade e beleza extraordinárias, é o “O Vinho” de Miguel Torga, que faz parte da sua obra Contos da Montanha (1941). Com muitas reflexões pessoais pelo meio, narra a queda de um homem bêbado que, sem forças para se levantar, assiste impávido e sereno à sua própria morte ao deitar inadvertidamente fogo ao pasto seco.
O conto inédito de Rui Zink, intitulado “A Gorjeta”, revela satiricamente o que pode acontecer a uma empregada de mesa que cai na tentação de aceitar uma bela gorjeta, não adivinhando que, por trás, o marido e o homem de negócios, personagens da diegese, se moveram pelos mesmos interesses. Esta história completa o livro Histórias para ler à sombra que apresenta na capa, de um amarelo de sol, motivos estivais salpicados em relevo, numa clara alusão ao objectivo com que se reuniram estas breves narrativas, ao se levar em linha de conta o título da obra.
Por questões de economia de espaço neste jornal, não convém entrar em mais pormenores quanto à intriga que move cada uma delas. Só espero que, através do que aqui se apresenta, haja afincada vontade de fazer oito curtas leituras, impulsionadoras de outras tantas viagens pelo universo da ficção, mesmo nesta altura, à frente de uma boa fogueira, tendo em conta o frio de Inverno que na Guarda se faz sentir!
Por: Cláudia Costa Rodrigues


