É possível imaginar a frustração dos leitores que chegam semanalmente a estas páginas à espera de conforto nas opiniões sobre os protestos contra as políticas públicas e práticas privadas de acesso à habitação e encontra crítica literária a heterónimos de Cristiano Ronaldo ou lamentos pelo estado da política internacional. E a frustração que imagino é absolutamente nenhuma, porque acredito solidamente que ninguém se interessa pelas opiniões que são largadas semanalmente neste Observatório.
É com base nessa confiança que avanço a minha opinião sobre as acampadas das últimas semanas em várias praças das nossas cidades. Para mim, não gosto de campismo. Mas não critico. Não tenho legitimidade para criticar quem prefere dormir no chão, em contacto com bicharada vária – que pode ir de mosquitos a hippies – sem uma casa de banho só para si. São escolhas.
Relembro as idas ao campismo como os momentos menos esperados da minha adolescência. O que para o resto da minha geração eram momentos de liberdade, descontracção e convívio, para mim eram dias de quiosques longínquos, casas de banho partilhadas e multidões de desconhecidos. A vez que durante esses Verões mais se aproximou de uma “rom-com”, acabou com a única moça com quem houvera estabelecido um diálogo com mais de três linhas a dizer “aquele que ali vem com ar pouco encantador é o meu namorado”.
Desconheço a convivialidade contemporânea no meio de acampamentos – para dizer a verdade, também desconheço a convivialidade contemporânea fora de acampamentos – mas consigo imaginar diálogos interessantes entre os manifestantes que estão contra a situação, e os situados que estão contra a manifestação. Não me refiro à polícia, porque o diálogo deles está na ponta do cassetete, objecto que fala um idioma mais áspero do que holandês ou alemão.
Refiro-me a quem observa os protestos com o desdém e enfado de João da Ega.
Exemplo 1:
– O menino tem casa?
– Tenho.
– Então vá para casa.
Exemplo 2:
– O menino tem casa?
– Não tenho.
– E gosta de acampar?
– Gosto.
– Então vá viver para o campismo.
Mas isto são as opiniões do João da Ega. Eu não sou dono de uma casa nem gosto de acampar.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


