Opinião de José Valbom: Casas vazias

Escrito por José Valbom

31 de outubro de 2026. Meio dia de trabalho passado, por estradas, aldeias e veredas em domicílios.
As aldeias em romagem no mesmo sentido: o cemitério. Valha a verdade, sem pressa!
O chão sagrado, o lugar mais povoado da aldeia, hoje cuidado, é o ponto de encontro. Encontro afetivo entre duas margens.
Estes pensamentos são interrompidos, bruscamente, pela I.
– Dr., chegámos a Moreira de Rei, ao domicílio da D. A.
Terra acolhedora – deve o nome a isso mesmo – acolheu D. Sancho II na sua caminhada para o exílio em Toledo.
Sede de concelho entre o século XII e o século XIX (1836).
A sua necrópole proto cristã, a maior da Península Ibérica, estende-se pela igreja, o pelourinho e o largo contíguo a várias casas particulares. É constituída por cerca de 1.000 sepulturas antropomórficas. Depois de estudada em 2023, foi criado o centro interpretativo e, uma grande parte, voltou a ser soterrada para assegurar a sua conservação.
– Dr., deixe-se de divagações! Não vê a D. A. a acenar?
Olho, vejo e sinto uma idosa de marcha instável, aspeto frágil ao fundo de uma escadaria íngreme.
Vamos ao seu encontro por uma vereda.
– Sempre chegaram! Que bom! Senão não sei como haveria de fazer. A ambulância não chega à porta, como veem. O meu marido está na varanda, a espreitar o sol. Está sentado, já não anda.
Subimos a velha escada, parando a meio. Até para nós é difícil!
– Então Sr. J., somos da Junta de Avaliação, vimos vê-lo.
– Ainda bem menina, senão eu não ia lá. Já lá fui quando era novo ver a Sé e, há dois anos, antes de ficar entrevado, estive na Cardiologia. Estou doente do coração, das pernas… olhe, de tudo!
– Sabe, precisa de… – disse, em sussurro, a D. A.
– Sim, e são caras, por isso pedimos a avaliação.
– E não têm filhos para vos ajudar?
– Temos, temos muitos, mas estão longe, muito longe, lá por terras de França.
– E um lar? Vocês precisam de ajuda.
– Pois, precisamos, menino. O meu J. com oitenta e muitos, e eu com menos dois, mas cheia de artroses e doente do coração, já não sou capaz de o bulir. E não tenho a quem pedir socorro. Olhe, aquelas duas casas são dos meus dois irmãos que já morreram. A branca que está além é de uma idosa igual a nós, com 90 anos. A amarela é da D. G. que tem mais que 80, que só sai para ir à missa. O resto do casario está todo vazio. Casas vazias é o que tem esta terra… vivem aqui menos de 25 pessoas.
– Casas vazias são o que vê! Se olhar para esta vida apressada, sempre a andar e sem lugar, nem dá para ver quanto mais para criar raízes – acrescenta o Sr. J.
– Eu tenho aqui as minhas raízes. Daqui só saio para além – aponta com o dedo – Está a ver o cemitério? São menos de 20 metros a direito. Pelo menos uma vez no ano, tenho visitas – ironizou baixinho.
– Vamos, vamos indo que se faz tarde. Temos mais que fazer. Ouvir também dói – vou pensando, enquanto nos afastamos.
– Vão, vão com Deus” – deseja a D. A.
– Deus vos ajude! – gritaram como um só, voz rouca e fraca. Muito rouca, já estávamos no fundo das escadas.
Enquanto nos afastávamos gritava comigo próprio sem ninguém ouvir: como é verdade o que diz Fábio Scarano: «Vivemos demasiado depressa para imaginar outro futuro»; e como, construindo múltiplas paredes, tornámos falso o que dizia Miguel Torga: «O universal é o local sem parede». Vendo e sentindo com embotamento afetiva apenas o Centro! Nas últimas semanas, e como sempre, o Centro de Lisboa e o Centro do Porto!
Esquecemos o fundamental, como dizia Simone Weil: «Estar enraizado talvez seja a necessidade mais importante e menos reconhecida da alma humana».

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José Valbom

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