Lúcifer sempre se associou aos maiores traidores e, nem Virgílio, aprendiz de feiticeiro, deixou de ser o guia nesse vale de lágrimas em que se transformaram todos os encantos da Capadócia, que vão desde Machu Picchu, passam por Petra e aterram em Massada.
Nesta odisseia onde Ulisses deixa de ser protagonista e no caos que entretanto se instalou, salta-nos à vista uma série de personagens da vida real que em vez de assumirem o papel de verdadeiros artistas, responsáveis pela Comédia dell’Arte, combinando atitudes, promessas, palavra, distribuindo esperança, confiança, música, gestos de amizade, fazendo com que o cidadão comum faça parte de todo o espetáculo, preferem optar pela personagem autoritária de Clown, pelo extravagante tonto, onde alguns vestem a pele de chicharões que baralham tudo, seguindo as suas próprias conveniências, aliando-se a um lado ou ao outro, nessa cumplicidade de interesses, o que faz com que seja sempre o mexilhão a pagar as favas.
E se o Patati Patatá, o Torresmo, o Croquete, o Carequinha, o Atchim e o Espirro de sapatos enormes, nariz vermelho e cara pintada assumem a arte de fazer rir, que dizer dos palhaços que se tornam políticos e que, aos poucos, transmitem desconfiança, preocupação, neste mundo que em vez de ir ao circo do Soleil tem apenas por opção o Ringling Bros, o Nikulin de Moscovo ou o Ziratron militar sionista, onde, entre outros, entram palhaços medíocres, mais ou menos cheganos e, encontramos como cabeça de cartaz o Wrestler de trunfa loira no rodeo texano do Halloween, aquele clássico de terror deste último fim de semana, o Mean While siberiano tendo por passatempo a prática cossaca do “slap contest”, o doentio e sinistro, quase satânico (que me desculpe o Rushdie), Ben Gvir, a iraniana Ta Arof com a Hijab tapando a cara e a música argentina milanesa “por uma cabeza” toda esguedelhada, finalizando na voz rouca da Giorgia melão nessa ópera bufa “L’équivoco Stravagante”.
Realmente este mundo já teve melhores palhaços e melhores dias. Nos tempos que correm a “coisa” está mesmo entregue à bicharada.
E se assim é neste mundo globalizado convém fazer uma pequena análise a este cantinho à beira mar plantado, quarto país mais seguro do mundo, com um índice de corrupção abaixo da médica da União Europeia (56 pontos contra os 64 europeus), com legislação mais avançada da Europa na defesa de direitos humanos mas que na prática ocupa o 21º lugar em 31 países analisados deste velho continente, com quase dois milhões de pobres e… com um povo que protesta pacificamente contra a injustiça, a pobreza e sabe nobremente lutar pelo direito à educação, saúde, habitação, salários dignos, não embarcando em situações de violência como acontece em inúmeros países por essa Europa fora.
Aqui, a cheganagem e os palhaços do sistema, muitos deles sem condições para ainda estarem debaixo das luzes do picadeiro, apenas conseguem evocar uma lei com 52 anos de existência para exercerem violência perfeitamente gratuita (de recordar que a paciência tem limites), não percebendo, porque não têm cultura (política) suficiente, que a indignação não tem nem pode ser legislada, onde é visível a ausência de sensibilidade e savoir-faire para lidar com uma situação deveras pacifica. Que sorte para este nosso cantinho por sermos este povo bonito, tão bem cantado por Luíz Vaz, onde ainda ecoam as palavras do actual Presidente da República «O povo português é o melhor povo do mundo».
Mesmo assim… Desculpem-me a franqueza, jamais entregarei um cravo a um polícia que acabou de me dar umas bastonadas.
«É uma doidice o querer passar, criar, criticar nesta terra onde nascem laranjeiras», como diz a cantiga de Mignon. Se ainda houvesse cabelos seria preferível ser fabricante de caixinhas de banha.
Independentemente do pensamento de Eça, não vamos desistir. Isso é o que estes palhaços queriam. Vamos continuar a protestar pelo simples facto: temos razão.


