Os rankings nacionais das escolas voltam a colocar a educação no centro do debate público.
Não sou, nem nunca fui, um defensor dos rankings enquanto instrumentos de avaliação da qualidade das escolas. Acredito que a realidade educativa é demasiado complexa, humana e multifacetada para poder ser traduzida, na sua plenitude, por uma posição numa tabela. Uma escola é muito mais do que os resultados dos seus alunos nos exames. É um espaço de aprendizagem, de inclusão, de formação integral, de crescimento pessoal e de construção de cidadania.
Dito isto, não desvalorizo os rankings, muito menos os ignoro. Quando os resultados são positivos, como acontece agora com o Agrupamento de Escolas de Pinhel, devem ser reconhecidos, valorizados e, sobretudo, compreendidos à luz do trabalho que os tornou possíveis. O resultado conhecido a 30 de outubro, relativo ao ano letivo anterior, enche-me de orgulho e de uma profunda satisfação. O Agrupamento de Escolas de Pinhel foi a melhor escola do distrito da Guarda e alcançou o extraordinário 6º lugar a nível nacional no ranking de superação do ensino secundário, elaborado pelo jornal “Público” e pela Universidade Católica. É um resultado de excelência, que honra Pinhel e demonstra que o trabalho sério, persistente e partilhado produz frutos, mesmo num território tantas vezes confrontado com dificuldades acrescidas. Mas importa dizê-lo com toda a clareza:
Este resultado não nasceu hoje, nem é obra de uma pessoa, de uma equipa ou de um ano letivo. É o corolário de duas décadas de trabalho, de compromisso, de dedicação e de confiança no valor da educação.
Ao longo desses vinte anos, tive o privilégio de exercer funções como diretor do Agrupamento de Escolas de Pinhel e de participar num percurso construído por muitas pessoas e instituições e, por isso mesmo, este resultado não me pertence individualmente. Pertence a toda uma comunidade educativa que soube trabalhar em conjunto, ultrapassar dificuldades, estabelecer objetivos e acreditar que era possível fazer mais e melhor.
Pertence a todos os profissionais de educação, docentes e não docentes, que diariamente assumem a responsabilidade de ensinar, educar, acompanhar e apoiar os nossos alunos. Pertence aos alunos, razão de ser de todo o trabalho desenvolvido, que se empenham, aprendem, crescem e dão sentido à missão da escola. Pertence aos pais e encarregados de educação, pelo acompanhamento, pela confiança e pela colaboração indispensáveis ao percurso educativo dos seus filhos.
Pertence, igualmente, às instituições públicas e privadas que, ao longo dos anos, foram parceiros desta missão, reconhecendo que a educação não é responsabilidade exclusiva da escola, mas um compromisso de toda a sociedade e pertence, de forma muito especial, ao Município de Pinhel, primeiro na pessoa de Rui Ventura e, posteriormente, de Daniela Capelo, pelo apoio permanente, pela proximidade, pela colaboração e pela compreensão de que investir na educação é investir no futuro do concelho (executivo municipal que respira educação). A articulação entre a escola e o poder local foi, e continua a ser, um fator decisivo para criar melhores condições de aprendizagem, reforçar a ligação à comunidade e dar resposta aos desafios de um território do interior.
É esta rede de pessoas, de vontades e de responsabilidades partilhadas que ajuda a explicar o resultado agora alcançado. Por detrás de uma posição num ranking existem milhares de horas de trabalho, decisões, projetos, dificuldades ultrapassadas, relações de confiança e, acima de tudo, uma convicção comum, a de que todos os alunos merecem uma educação de qualidade, independentemente do lugar onde nascem ou vivem.
Pinhel demonstra, uma vez mais, que o interior tem qualidade. Demonstra que é possível construir uma escola de excelência fora dos grandes centros urbanos, com profissionais competentes, alunos capazes e uma comunidade que acredita na educação. Demonstra que a distância aos grandes centros não tem de significar distância às oportunidades, nem que a localização geográfica deva determinar as expectativas que temos para os nossos jovens.
Este resultado tem, por isso mesmo, um significado que ultrapassa largamente os limites do concelho.
Num país frequentemente marcado pela concentração de recursos, oportunidades e serviços no litoral e nas áreas metropolitanas, alcançar o 6º lugar nacional é também uma afirmação de justiça territorial. É a prova de que existem no interior competências, capacidade de organização, talento e vontade de fazer bem e de que esses recursos merecem ser reconhecidos, apoiados e valorizados.
É também por isso que considero fundamental contrariar a ideia de que a desertificação do interior é uma fatalidade à qual estamos condenados a assistir passivamente. Não é, nem pode ser. A demografia, a economia e a coesão territorial colocam-nos desafios reais, mas não nos retiram a capacidade de agir. Precisamos de políticas públicas consistentes, de investimento, de serviços de proximidade, de emprego, de habitação e de oportunidades para os mais jovens e precisamos, inevitavelmente, de escolas fortes, capazes de garantir às novas gerações as condições necessárias para construir o seu futuro.
Uma escola de qualidade não resolve, por si só, todos os problemas de um território, mas é uma condição essencial para a sua sustentabilidade. Atrai e fixa famílias, reforça a confiança da comunidade, promove a igualdade de oportunidades e contribui para que os jovens possam imaginar o seu futuro na terra onde cresceram, se assim o desejarem.
O resultado do Agrupamento de Escolas de Pinhel deve ser motivo de orgulho, mas também de responsabilidade. Orgulho pelo caminho percorrido e pelo reconhecimento alcançado, conferindo responsabilidade para continuar a trabalhar, porque nenhuma posição num ranking garante, por si só, a qualidade futura. Essa constrói-se todos os dias, com exigência, dedicação, capacidade de adaptação e atenção permanente às necessidades de cada aluno, ninguém ficando para trás (escola inclusiva).
No meu caso pessoal, este reconhecimento tem ainda um significado particular. Desde julho de 2026, passei à condição de aposentado, encerrando um ciclo profissional que marcou profundamente a minha vida. Saio das funções de diretor com a consciência de que nenhum percurso se faz sozinho e com a enorme gratidão por todos aqueles que comigo partilharam este caminho. Saber que o Agrupamento alcança agora um resultado desta dimensão constitui uma satisfação muito especial, não por qualquer sentimento de posse, mas por ver reconhecido o trabalho coletivo de uma comunidade na qual continuo a acreditar.
A escola continuará o seu caminho, como deve ser. A atual direção da escola que já vinha a trabalhar comigo (professores, António Marques, Joaquim Pinharanda, João Guerra, Esperança Álvaro e Paulo Brás), bem como os seus profissionais, os seus alunos, as famílias, as instituições parceiras e o Município continuarão a ser os protagonistas dos desafios que se seguem.
É essa continuidade que verdadeiramente importa.
Hoje, perante este resultado, a palavra que melhor exprime o que sinto é gratidão. Gratidão a todos os que contribuíram para este percurso, a todos os que acreditaram, a todos os que trabalharam e a todos os que nunca aceitaram que estar no interior significasse ter menos ambição ou menos capacidade.
O 6º lugar nacional é um número. Ser a melhor escola do distrito da Guarda é um reconhecimento.
Mas o verdadeiro resultado está muito para além de qualquer classificação! Está na qualidade do trabalho desenvolvido, nas oportunidades proporcionadas aos alunos e na confiança que uma comunidade ganhou na sua própria capacidade.
Pinhel tem razões para estar orgulhoso e o interior tem razões para acreditar, porque a qualidade não tem morada exclusiva nos grandes centros e a excelência não depende da latitude ou da longitude. O futuro do interior constrói-se todos os dias, com pessoas, instituições, compromisso e esperança.
Concluindo:
Este resultado prova que, quando uma comunidade se une em torno da educação, o interior não se limita a superar expectativas, afirma-se pela excelência, conquista oportunidades e constrói, com confiança, o FUTURO das próximas gerações.
* Professor e antigo diretor do Agrupamento de Escolas de Pinhel


