Sempre desconfiei dos portugueses que dizem, “Portugal é o melhor país do mundo”. É sinal de nunca terem daqui saído ou de terem escolhido mal. Sempre desconfiei dos estrangeiros que dizem, “Portugal é o melhor país do mundo”. É sinal de terem passado cá pouco tempo ou viverem em sítios exclusivos onde os portugueses não chegam.
Mas sempre me surpreenderam os estrangeiros que escolheram viver em Portugal. Tanta escolha, tanta possibilidade, e vêm parar aqui? Por vontade própria? Tal decisão só pode ser totalmente irracional, fruto de más escolhas e pouco discernimento, o que, de imediato e inevitavelmente, promove a boa integração dessas pessoas na sociedade portuguesa, já que partilham essas características com a imensa maioria dos portugueses que já andavam por cá.
Sempre fui da opinião que um estrangeiro que chega a Portugal e diz, “olha, gostava de ficar por aqui”, devia imediatamente receber um passaporte e, se houver disponível, um bocado de terra, como o conde D. Henrique, vindo lá das terras da Borgonha. Hoje, esta opinião é pouco popular, precisamente porque se foi popularizando a opinião do primeiro parágrafo, de que Portugal é um país do caraças. Não é. Nós, os que nascemos aqui e cá ficámos, não temos grande mérito naquilo que Portugal tem de bom – o sol, as praias, as montanhas, as azeitonas – e temos imensa culpa naquilo que funciona mal – praticamente tudo o resto. Acresce ainda o demérito de sermos preguiçosos para mudar isto ou de ir para outro lado.
Os estrangeiros que vêm com vontade de ficar – não os que são mandados para cá e três meses depois já estão na Europa – merecem um carinho especial, porque isso é uma escolha. Ainda mais me admiro com os que requerem a nacionalidade. Nas filas de embarque nos aeroportos, há uma malta que exibe orgulhosamente os seus passaportes – britânicos, alemães, finlandeses, até russos – enquanto os portugueses aguardam envergonhadamente por chegarem mesmo ao controlo do “boarding pass” para tirar o pequeno cartão de cidadão do bolso e mostrar, com a esperança de que o seu nome comprido, com dois nomes próprios e dois ou três apelidos, não denuncie a sua portugalidade.
O país foi inventado por um filho de dois imigrantes, foi construído por gente vinda de todos os lados, foi exportado para gentes de outras crenças e cores. De uma coisa estou convencido: não fossem os portugueses, Portugal poderia ser mesmo um dos melhores países do mundo. Isto com um governo estónio, uns professores finlandeses, uns médicos cubanos, uns gestores alemães, uma polícia singaporeana e uns engenheiros japoneses era coisa para dar certo. O povo podia ser de onde calhasse. Se calhar, até portugueses.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


