Saía‑se a seguir ao pequeno‑almoço e entrava‑se ao jantar. No meio, podia ter acontecido qualquer coisa, e ninguém fazia perguntas. Bastava aparecer à mesa.
Os verões da minha infância passaram‑se assim, repartidos entre o bairro, uma vila a vinte quilómetros da minha cidade, onde estavam a minha avó e o meu tio, e a Serra da Estrela, onde aprendi a nadar numa piscina de água da mina que era um exercício simultâneo de coragem e de termodinâmica. Hoje paga‑se caro por experiências deste género em retiros de desenvolvimento pessoal. Nós tínhamo‑las de graça, e ainda nos sobravam moedas para o gelado.
A vila tinha poços onde íamos espreitar para confirmar que a água ainda lá estava, trilhos junto à ribeira que conhecíamos melhor do que algumas ruas do bairro, e bandas de garagem montadas com mais entusiasmo do que talento e nenhuma intenção visível de chegar a algum lado. Havia também o circo itinerante que parava por lá duas semanas e nos deixava, durante esse tempo, ter como amigos pessoais um malabarista e um trapezista, o que é uma coisa que só pode acontecer aos quinze anos e em agosto.
Os outros eram os amigos da vila e os amigos de Lisboa que voltavam todos os verões. Ninguém perguntava de onde vinhas. Em julho éramos uns; em agosto éramos mais; em setembro voltávamos a ser uns. Esta geometria variável funcionava porque ainda não tinha sido inventada a obrigação social de marcar tudo com antecedência. Combinava‑se um jogo de bola depois do almoço dizendo “depois do almoço”. E estávamos lá.
A imagem que me ficou daquilo é uma só: liberdade. Mas a palavra perde‑se depressa se ninguém explicar o que estava por baixo. Por baixo havia regras. Eram poucas e eram claras. Não se passava da curva tal, voltava‑se a tempo de comer, dizia‑se onde se ia. Cumpridas essas três coisas, o resto era nosso. Os meus pais sabiam que a rua era segura, e a rua era mesmo segura. Não vigiada, não monitorizada, não controlada por aplicação móvel. Habitada. É outra coisa.
O som desse verão era o da ribeira a entrar pela janela durante a sesta, e o cheiro era o da terra, porque andávamos sempre. Quando voltávamos para casa da avó, cobertos de pó, havia batata cozida com feijão‑verde, bacalhau e ovo, que é o prato em que penso quando alguém usa a expressão “comida reconfortante” e me apetece dar‑lhe uma chapada cordial. Não há cozinha de autor que ponha em causa a autoridade emocional de uma travessa daquelas, pousada em cima da mesa por uma mulher que já tinha estado de pé desde as sete.
O que se perdeu, e digo isto sem o lamento que o género parece exigir, não foi propriamente uma coleção de brincadeiras. Foi aquilo a que chamaria, com algum risco, o aborrecimento fértil. Esse tempo em que não acontecia rigorosamente nada, e por isso podia acontecer tudo. Hoje, quando se fala de infância, fala‑se de segurança, de competências, de atividades, de desenvolvimento integrado da criança em ambientes estruturados. Tudo isto importa, suponho. Falta no inventário aquilo que talvez fosse o mais importante: o direito de não fazer nada de útil durante uma tarde inteira, com a imaginação obrigada, por puro tédio, a fazer horas extraordinárias.
Também se perdeu a confiança. Não a confiança nos miúdos, que era enorme e provavelmente exagerada, mas a confiança no espaço. Hoje os pais ( e percebo‑os) já não confiam na rua, e a rua sente‑o e retribui. Tenho amigos que falam todos os dias com gente que nunca apertaram a mão. Pode ser maravilhoso. Mas não é a mesma coisa que combinar “o jogar à bola” depois do almoço.
Quando volto àquela vila, ao final da tarde, passo numa rua onde durante anos havia sempre pelo menos três crianças. Agora há um banco.
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