Opinião de José Valbom: Três voltas ao campo

Escrito por José Valbom

Vinte e nove de maio, 36ºC às 13h05, um dia de Primavera dos tempos modernos.
Perdidos no caminho entre Trancoso e Sabugal (duas urbes na Idade Média), com a barriga a dar horas (ainda falta um quarto de hora para o “Martins” de Badamalos), encontramos o campo da bola, com ervas, com as balizas a olhar uma para a outra.
– Rita, o que vês?
– Nada…
– Como?! Não vês nada?
– Eu vejo, eu ouço, eu sinto, na década de 70, o Jaime, o Zé Tó, o Arnaldo, o Zé Alberto… a correr, a saltar, a jogar contra outros tantos. Dez contra dez, às vezes mais, muitos menos na hora de ir buscar as vacas ao lameiro.
Não ouves?! «Zé, vem para casa, são horas!». Uma e outra e mais uma vez, que o jogo está empatado.
Não reparas?! A bola está a desfazer-se. O Arnaldo já rebola mais depressa do que ela. O tio de Lisboa vai trazer outra nas férias.
– Então e ainda não vês nada?
– Vejo, cada vez menos gente…
– Sim, com o número de garotos a reduzir… Na década de 90 eram cinco. O bando dos cinco: para a passarada, o David, tinha olho para os ninhos; para as melancias da Ti Ana, o Francisco escolhia sempre «a mais docinha» mesmo em noite de breu; e até o vinho da sacristia que, por milagre, deixou de azedar – «evaporava».
Era o tempo de outro milagre: estradas, muitas estradas. Só estradas. No interior de um só sentido – só levavam. Até o tio de Lisboa deixou de vir de férias…
Foi o tempo de fechar escolas, umas atrás das outras! Foi o tempo de alargar cemitérios, uns atrás dos outros!
– E agora Rita, já vês mais alguma coisa?!
– Campo e casas vazias… Ervas e mato rasteiro. Vejo o mesmo que via ao longo do caminho, o mesmo em frente, atrás e dos lados, sempre o mesmo… Tenho medo dos incêndios!
– Estás como o Zé Alberto, o único que ficou. O mais afoito de todos nós, tem andado acabrunhado. Não dorme há semanas a limpar os terrenos. «Temo pelas vacas do campo», diz a cada pé de passada. Não confia nos «9.789 homens e mulheres, entre bombeiros, Proteção Civil, militares da GNR e funcionários do ICNF alocados ao combate a incêndios»,… Não acredita nas «78 aeronaves, entre helicópteros e aviões de várias tipologias, disponíveis para o combate aos incêndios nesta fase» – E ainda é primavera!!!…
Ao perguntar-lhe por que não acreditava, respondeu:
– Porque os de Lisboa não gostam de nós. Quem gosta cuida…
Sábia resposta!

O Zé sabe, um saber de experiências feito, que «apostamos, sempre no combate, no combate, no combate…. Centrar o discurso nos meios é ignorar tudo o resto… É no território que está a causa profunda dos incêndios rurais… no colapso demográfico,… na fuga da população do Interior para o Litoral…», (Público, 30/05/2026).
O Zé sente a falta de agricultores e da agricultura, trocados por estradas, fundos e outros benefícios e beneficiados.
– Sabe Dr., para o ano a conversa é a mesma – remata o Zé Alberto.

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José Valbom

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