Imagine o seguinte. Dois suspeitos são detidos e interrogados em separado. Cada um pode calar-se ou denunciar o outro. Se ambos se calarem, cumprem uma pena curta; se ambos denunciarem, uma pena pesada; se só um denunciar, esse sai livre e o outro paga por dois. Para cada preso, a conta dá no mesmo: faça o outro o que fizer, denunciar é a melhor jogada. E assim ambos denunciam e acabam no pior resultado possível, com a cooperação ali ao alcance. Não falharam por falta de inteligência, mas porque a estrutura do jogo os encurralou.
Chama-se o dilema do prisioneiro e é das ideias mais estudadas da economia. Na forma pura, joga-se uma só vez. Mas a versão que governa boa parte da economia mundial repete-se ronda após ronda, e a repetição abre uma saída que o jogo único não tem: como há um amanhã, trair hoje pode custar caro, e isso chega para sustentar alguma cooperação, sem nunca matar a tentação de trair quando o ganho é grande. O exemplo de manual é a OPEP, o grupo que coordena a oferta mundial de petróleo. Os membros acordam limitar a extração para sustentar o preço, mas a cada um compensa produzir acima do combinado e vender caro enquanto os outros seguram a oferta. Quando são demasiados a fazê-lo, o preço deveria afundar. Foi o que começou em maio: os Emirados saíram do grupo para produzir ao seu ritmo, e os restantes responderam a abrir também as torneiras. O preço, esse, só não caiu porque uma guerra o segura.
A OPEP é o jogo entre sócios que se traem. A guerra dos semicondutores é a sua versão mais perigosa, a de rivais que nunca confiaram um no outro. Os Estados Unidos restringem a venda de chips avançados à China, com o argumento legítimo de proteger tecnologia sensível; a China retalia com controlos sobre as terras raras, sem as quais não se fazem os chips nem os carros elétricos. Cada gesto é defensável por si, mas, somados, encarecem a tecnologia para todos e deixam ambas as potências mais pobres. A ASML, a holandesa que fabrica, sozinha no mundo, as máquinas que gravam os circuitos nos chips mais avançados, viu as vendas à China caírem de 36% para 19% num só trimestre.
Falta uma peça, e a teoria dos jogos não a tem. Se ambos sabem que perdem, porque não param? Por medo, e por um medo de feitio curioso. Perder cem euros pesa mais do que ganhar outros cem: é uma assimetria que a nossa cabeça aplica a tudo, e que aqui prende as nações ao jogo. Nenhuma quer ser a única a baixar a guarda, o prisioneiro que se calou e foi traído, e por isso todas preferem perder devagar a arriscar perder tudo de uma vez.
A saída existe, e de vez em quando vislumbra-se. No fim do ano passado, após uma cimeira entre Washington e Pequim, a China suspendeu por um ano os controlos sobre as terras raras e os Estados Unidos aliviaram restrições. Mas foi uma trégua com prazo, não uma paz, e a paz é o que escasseia. A guerra entre Israel e o Irão mantém o Estreito de Ormuz semibloqueado e o petróleo acima dos noventa dólares. E há duas semanas o Banco de Portugal avisou: o maior risco para a estabilidade financeira é a ocorrência simultânea de choques geopolíticos e financeiros. É o que se passa agora.
O perigo não é que um dos lados vença. É que cada jogada, vista de perto, é racional, e somadas deixam-nos a todos mais pobres e menos seguros. Há saída, num jogo que se repete: quem coopera primeiro e retribui o gesto do outro ganha mais do que quem trai sempre. O mais difícil não é descobrir a jogada inteligente. É confiar que, desta vez, o outro também a fará.


