Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Manifesto contra a contra-reforma

Escrito por João Coelho

O governo veio a público dizer que adora reformas. O povo costuma dizer em privado que adora reformar-se. O problema é que governo não permite que o povo se reforme, e o povo não aceita que o governo faça reformas. Todos afirmam que as reformas é que são boas, mas cada um só admite a sua própria reforma.
O governo garante que não há ninguém mais reformista do que este executivo e esclarece a necessidade de reformar os serviços públicos. O povo, em concordância, pede em barda a sua própria reforma do serviço público. O governo não está pelos ajustes, e sem atingir uma idade mínima, não aceita a reforma dos funcionários públicos. Talvez por vingança, os funcionários públicos que pedem a reforma para deixar de trabalhar, fazem greve e durante uns dias (greves, feriados, pontes e fins-de-semana) deixam de trabalhar porque não concordam com as reformas para os serviços públicos propostas pelo governo.
Seguindo uma velha máxima, “a minha política é o trabalho”, um antigo primeiro-ministro declarou peremptoriamente, “deixem-me trabalhar”. Agora, em consonância com o moderno aforismo, “a nossa política é a reforma”, o novo povo proclama, “deixem-me reformar”.
Viver na reforma é também conhecido por uma expressão introduzida na sociolinguística lusitana pelos emigrantes em França, entretanto regressados à pátria: “estar na retraite” (para quem não aprendeu francês na escola ou nos filmes da Nouvelle Vague, lê-se “retrréte”.) As reformas são, por isso, uma espécie de estadia na latrina. Para os próprios é um consolo ou um alívio, para os demais deixa cheiros desagradáveis.
Numa coisa, povo e governo estão em sintonia. Para além de ambas as palavras terem a letra V, ambos (povo e governo) julgam que as reformas são importantes para melhorar a qualidade dos serviços. O governo acredita que só reformando o Estado se conseguirá obter melhores acessos dos cidadãos ao estado de bem-estar. O povo acredita que só no estado de reformado conseguirá obter melhor acesso ao estado de estar bem.
O povo desconfia do governo por falar em reformas, mas nada fazer. O governo desconfia do povo por falar na reforma para não fazer nada. Esta contradição parece insanável, mas não é. Se o governo deixasse que o povo se reformasse conforme a sua vontade, estou convencido que o povo permitiria que o governo se reformasse consoante o seu desejo. Nem sequer é o conhecido encontro a meio da ponte. É cada um atravessar a ponte para o outro lado sem esbarrarem um no outro durante o percurso.
Este é, após aturada observação do mundo levada a cabo entre jogos de preparação para o mundial de futebol e duas séries da Netflix e HBO, o busílis da questão. Há também uma questão do busílis, mas esta semana já não há espaço para tratar dela. O busílis é o governo ter intenções de reformas por insatisfação com o estado do país e com o povo que o habita. O busílis é o povo pretender reformar-se por insatisfação com o país do Estado e com o governo que o ocupa. Muitas vezes, parece que o governo gostaria de ter outro povo. Quase sempre, o povo gostaria com certeza de ter outro governo.
Pessoalmente, sou um optimista das reformas. Gosto do manifesto que levou à reforma protestante de Martinho Lutero, aceito o manifesto reformista deste governo, admito os protestos do povo contra as reformas. E estou totalmente disponível para receber a minha própria reforma, que muito apreciaria poder passar os últimos anos da minha vida sentado a ler na minha retraite.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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João Coelho

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