Opinião de Francisco Manso: Um crime na Catraia do Bacalhau

Escrito por Francisco Manso

Em 1883, um crime de extrema violência, perpetrado junto às portas da Guarda, na Catraia do Bacalhau – localidade célebre pela sua taberna –, chocou a cidade. Se num primeiro momento foi o brutal homicídio que dominou as conversas, seriam as suas consequências indiretas que iriam ecoar durante décadas. Os médicos João Monteiro Sacadura e Lopo de Carvalho, figuras proeminentes numa cidade que contava com apenas cinco clínicos, viram a sua antiga e sólida amizade transformar-se num ódio visceral, arrastando consigo a sociedade local.

O crime

José Marques nasceu no Cerdeiral, na freguesia de Panóias, em 1870. Filho de António Marques Fernandes e de Ana Generalda, José era um homem de parcos recursos, a quem a sorte raramente sorriu. Trabalhava como carreiro, manuseando habitualmente um carro de bois ou uma carroça. Foi precisamente no exercício desta faina, ao transportar vinho, que, na segunda-feira, 19 de fevereiro de 1883, já próximo do anoitecer, foi surpreendido por um bando de assaltantes na Catraia da Alegria, junto à Quinta do Ribeiro do Paço, nos arredores da Guarda.
Os agressores forçaram-no a descer da carroça e espancaram-no barbaramente, cessando a violência apenas quando o julgaram sem vida. Para forjar um acidente e simular que as próprias bestas e o veículo o teriam esmagado fatalmente, arrastaram o corpo para um pequeno largo – que ainda hoje marca o cruzamento entre a estrada que liga a Guarda à Santa Cruz e Aldeia do Bispo, e a que segue para Vale de Estrela – e fizeram passar a carroça várias vezes sobre ele.

Catraia do Bacalhau. Restauro A. Manso

Apesar da audácia do crime, o bando não contava com uma testemunha. Na Catraia existiam três ou quatro pequenas casas térreas, numa das quais funcionava, até há poucos anos, uma venda com taberna. Uma mulher que ali residia, alertada pelo ruído, espreitou pela janela e presenciou todo o ocorrido. Contudo, um dos salteadores apercebeu-se da sua presença, obrigou-a a sair de casa e infligiu-lhe uma brutal sova, ameaçando-a de morte caso ousasse denunciá-los.
O caso, que suscitou grande alarme social, foi confiado a uma figura incontornável da polícia e da cidade: Gerardo Batoréu. A esquadra encontrava-se, na altura, instalada no Largo Serpa Pinto, para onde fora transferida em 1886, após ocupar um casarão arrendado ao Dr. António Teles de Vasconcelos Pimentel, antigo Ministro e Par do Reino, na Rua de São Vicente. Graças ao sucesso das investigações – em grande parte facilitado pela testemunha que, mesmo sob coação, não silenciou o crime – foram detidos sete homens de Porco (Vale de Estrela).
Entretanto, José Marques, em estado moribundo, fora transportado para casa dos pais. Ali foi assistido pelo Dr. António da Cunha Prelada, cirurgião do RI 12, mas, dada a gravidade das lesões, o jovem veio a falecer no dia 2 de março de 1893.

A autópsia e a farsa

Perante o óbito, as autoridades ordenaram a realização de uma autópsia, cujo único perito foi o Dr. João Monteiro Sacadura.
A autópsia, realizada apenas pelo referido médico, apresentou conclusões surpreendentes.
No seu relatório, o médico descreveu apenas um ligeiro ferimento na pálpebra direita e duas equimoses superficiais no tórax; ao examinar as cavidades internas, concluiu, de forma espantosa, que a causa direta da morte fora uma pneumonia, acrescentando, ironicamente, que tal enfermidade «pode contrair-se no leito nupcial».

A caminho da Guarda indo da Catraia do Bacalhau. Restauro A. Manso

Alarmado pelos boatos públicos e pelas suspeitas de tráfico de influências, o Juiz de Direito da Comarca não se conformou com aquele laudo e com a curiosa patogenia apresentada. Para dissipar as acusações veladas de proteção superior, ordenou um segundo exame médico, convocando três especialistas: o Dr. António da Cunha Prelada, o Dr. António José Gomes e o Dr. Lopo de Carvalho, a quem se juntou o próprio juiz.
Ao exumarem o corpo no cemitério, os peritos depararam-se com uma descoberta chocante: a primeira autópsia fora uma farsa. O cadáver não tinha sido realmente examinado. Apresentava apenas um golpe nas paredes abdominais, da região umbilical ao púbis, feito “post mortem”, mas as vísceras permaneciam intactas, sem qualquer manuseio ou observação.
Segundo o Dr. Lopo de Carvalho, a verdadeira causa da morte residia num ferimento perfurante no crânio, que determinou um estado comatoso, seguido de meningite e encefalite difusa supurativa. Colocava-se, então, um problema pragmático aos peritos: como conciliar a necessidade de justiça e condenação dos criminosos com a proteção da reputação de um colega de profissão?
A fórmula encontrada foi diplomática: os réus foram condenados por homicídio voluntário e o Dr. João Monteiro Sacadura não foi incomodado. O juiz, por seu lado, solicitou e obteve a transferência da cidade.

As consequências

Contudo, o desfecho não ficou por aqui: pouco tempo depois, iniciou-se uma violenta campanha difamatória no jornal “Comércio da Guarda”, encabeçada precisamente pelo Dr. João Monteiro Sacadura, que, de antigo amigo, se tornara agora o implacável rival do Dr. Lopo de Carvalho. Esta luta entre os dois, duas das principais figuras da cidade, vieram a arrastar-se ao longo de anos, com publicações e desmentidos ferozes. Chegou a ser até editado um livro sobre o assunto, da autoria de Júlio Ribeiro, autor de “A Canção da Guarda”.

Festa da Santa Cruz, a seguir à Catraia do Bacalhau. Foto A. Manso restauro

Protagonistas

Gerardo Batoréu, filho de António Angelino Botaréu e Mariana Carlota Carneiro, casou com Maria Adelaide dos Anjos Ribas, filha de Simão Ribas. Foi um carismático chefe da Polícia da Guarda, reconhecido pelos seus dotes de investigador. Foi na sua casa de residência que se realizou, a seu pedido, a primeira reunião da Companhia dos Bombeiros Voluntários da Guarda.
Dr. António José Gomes, filho de Estêvão José Gomes, de Monte Novo, Pousafoles, concelho do Sabugal, e médico na Vela. Foi médico na Santa Casa da Misericórdia. Foi substituído pelo dr. Lopo de Carvalho. Faleceu em 1926.
João Monteiro Sacadura, filho de António Monteiro Sacadura e Mariana Martins Pinheiro, nasceu Malhada Sorda, concelho de Almeida, em 1846. Formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, em 1876. Casou com Maria Augusta Sena Belo, a 11 de maio de 1881, na Sé. Maria Augusta pertencia a uma das famílias mais distintas e abastadas da região. A água que abasteceu o Sanatório Sousa Martins provinha de uma das suas muitas propriedades. Foi mais uma razão de conflito com Lopo de Carvalho. Foi médico do Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Guarda,
Dr. Lopo de Carvalho, filho de José Maria Dias de Carvalho e Mariana Augusta de Figueiredo, nasceu a 3 de maio de 1857, em Tojal, Sátão. Formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, em 1883. Depois de várias andanças, em 23 de janeiro de 1885 foi nomeado Facultativo Municipal.
Curiosamente, isso veio a acontecer no mesmo dia que o Dr. Monteiro Sacadura. Casou com Leopoldina Patrício, filha de Francisco António Patrício, também uma das famílias mais prestigiadas da Guarda.
E, como ele, foi médico na Santa Casa da Misericórdia, onde foi substituir o dr. António José Gomes.
Em 1908, a seu pedido, deixou de exercer clínica no hospital, passando para o Sanatório. Em sua substituição foi nomeado o dr. Amândio Paul. Lopo de Carvalho foi encarregado do processo de escolha dos terrenos e da sua aquisição para a construção do Sanatório – não foi tarefa fácil.

Epílogo

A água proveniente das propriedades da família Sacadura, lá para os lados do Forte do Marquês de Alorna, sofreu um atraso significativo até chegar às torneiras do Sanatório, mas chegou.
A parte do terreno da família Sacadura necessária para a edificação do Sanatório sempre acabou por ser comprada pela Assistência Nacional aos Tuberculosos, proprietária do Sanatório. A maior parte, englobada na Quinta do Pina, pertencia a Francisco de Pina Carvalho, mas sob a qual Monteiro Sacadura tinha direito de opção. A outra parte pertencia a Augusto Pissarra, da Quinta do Chafariz.
O consultório continuou na posse do dr. Lopo de Carvalho. O filho, Fausto Lopo de Carvalho, num gesto magnânimo, devolveu-o à cidade.
O tal livro de Júlio Ribeiro, relatando a guerra entre os dois, é tão raro que levou Pinharanda Gomes a afirmar que nem teria sido publicado. Mas foi.
Nunca mais se entenderam!

* Investigador da história local e regional

Sobre o autor

Francisco Manso

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