Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Conta Lá

Escrito por Diogo Cabrita

Uma página de ideias repetidas nunca será ciência, apenas a demonstração da preguiça de quem se respalda no mil vezes dito. Aquilo que se diz mil vezes vira uma verdade mesmo que não. Assim se doutorou a moça que chamavam rameira e rameira ficou, doutora é que não. Assim se apelou de bandido o Carlos que nunca o foi. A palavra chega antes da pessoa. A mentira entra pelas frestas e perdura. A maledicência é como as flores que os insetos polinizam e se reproduz em novas flores. A palavra tem esta potência das balas que adorna os outros com bandeiras. Quando chegou o Venâncio era um crápula e um incompetente. Mas não. O insulto e a perfídia torram as virtudes alheias, e o pão sai sempre carbonizado. Raspa-se bem e comemos torrada com azeite e tomate e presunto. Raspar é tolerância nestes dias. Agora sabe bem.
O mundo contemporâneo é deste dedo acusador, é desta palavra em riste, deste infinito desprezo e desconfiança. Não nasceu por espontânea palermice, fertilizou-se na mais torpe comunicação social, a que hiperboliza o pior, a que só publicita o que corre mal. Recentemente vi uma série de programas que percorriam a Nacional 2 e falavam de gente corajosa que tentava uma mudança de vida seguindo uma convicção bem plantada. O canal Conta Lá é de momento uma brisa fresca no horizonte. Obrigado, Sérgio Figueiredo.

Sobre o autor

Diogo Cabrita

Deixe comentário