Editorial de Luís Baptista-Martins: De Cabo Verde a Curaçau

1. O Mundial 2026, no Canadá, Estados Unidos e México começou há uma semana para alegria de todos os adeptos no mundo. O futebol, que já ocupava entre nós grande parte do espaço mediático, durante um mês vai dominar a nossa vida. E mais ainda a vida das crianças, que até agora andou ocupada com a falta de cromos para colecionar e agora vão ver os cromos a toda a hora na televisão.
O maior campeonato do mundo de sempre… tem os candidatos habituais à vitória – a França, a Espanha ou até a Inglaterra, a Argentina ou a Alemanha. Dizem que Portugal também é candidato e que o Brasil não tem hipóteses (o percalço com Marrocos serviu para acalmar o entusiasmo canarinho) – mas se desde 1982 que choramos pela seleção brilhante de Telé Santana, Zico ou Sócrates, queremos que o futebol do samba volte e o Brasil ganhe, se não formos nós os campeões…! Ou o “nosso” Cabo Verde que surpreendeu a “la roja” na sua estreia, num escarcéu de soberba espanhola.
Um mês de bola para deleite de pequenos e graúdos. E para percebermos que os Estados Unidos oprimem quem chega, seja um árbitro da Somália ou a seleção do Irão, que vai jogar todas as partidas nos Estados Unidos, mas terá de dormir no México. A política a mandar, num mundial feito para a FIFA ganhar muito dinheiro e Trump mostrar quem manda no mundo ou no Mundial!
2. Curaçau é a seleção do mais pequeno país presente no Mundial, sem outra ambição que não seja sofrer poucos golos (para já levou sete da Alemanha). Curação ou Curaçau? O nome deste pequeno país nas Antilhas holandesas, a norte da Venezuela, terá sido dado pelos portugueses àquela ilha – que continua a ter como chefe de Estado o rei dos Países Baixos, como tantas outras colónias que os neerlandeses (ou os franceses) têm no mundo, sem que ninguém sinta vergonha ou os apelide de colonialistas.
No séc. XV o escorbuto, por falta de consumo de verduras e frutas ricas em vitamina C, dizimava os marinheiros que durante meses navegavam à conquista do mundo. Navegadores portugueses com escorbuto terão sido abandonados naquela ilha e terão sobrevivido milagrosamente depois de devorarem limões selvagens. Os portugueses chamaram então à ilha de curação do escorbuto (de curar). Posteriormente, a ilha foi dominada pelos holandeses que assumiram o nome português, mas não conseguindo dizer o “nosso” curação (de cura) derivaram para curaçau.
3. Muitas vezes criticamos o futebol e o seu predomínio no desporto nacional. Não é para menos. Mas, sem pruridos, devemos assumir naturalmente que os portugueses gostam de futebol e que a modalidade tem sido muito bem gerida, bem planificada e desenvolvida: o sucesso do futebol português não é fruto do acaso, é o resultado do génio de alguns e do excelente trabalho de muitos.
Dizem que Portugal até é candidato a campeão mundial – “dizem”!… Foi campeão europeu há 10 anos (em França e contra a França) e venceu a Liga das Nações em 2019 (ganhado na final os Países Baixo) e em 2025 (frente à Espanha). Em nenhuma outra modalidade estamos entre os melhores do mundo. Nem no desporto, nem em qualquer outra atividade de forma coletiva. Portugal é um pequeno país que, no futebol, e apenas no futebol, está entre os melhores do mundo.
E temos o melhor jogador do mundo. Ou a maior estrela de futebol do mundo: Cristiano Ronaldo. Os seus detratores acham que já não deve jogar na seleção, mas Cristiano até pode jogar de bengala que tem mais impacto no jogo e aplauso universal que qualquer outro craque com metade da idade. Se Bruno Fernandes, Vitinha e Neves confirmarem a excelência reconhecida e se Nuno Mendes não quebrar, mesmo com uma defesa que é um buraco, Portugal ficará entre os primeiros. Até lá, somos todos cabo-verdianos. Amanhã se verá!

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Luís Baptista-Martins

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