Opinião de Fidélia Pissarra: Sementes de ruindade

Escrito por Fidélia Pissarra

Na televisão atrás de mim, alguém fala entusiasticamente do campeonato mundial de futebol, enquanto, noutro ecrã, releio no prefácio do “Aparofobia, a Aversão ao Pobre”, de Adela Cortina, que «a 17 de março de 2016, os jornais espanhóis relataram algo embaraçoso que tinha ocorrido em Madrid no dia anterior». Detenho-me no «embaraçoso» a que, na tentativa de tentar perceber como é que aqui chegámos, dou voltas e mais voltas. Apesar de tudo, parece que há apenas dez anos, a humilhação a que alguns adeptos do PSV Eindhoven submeteram o grupo de pedintes ciganas na Plaza Mayor, atirando-lhes moedas e obrigando-as a dançar e a fazer flexões na sua frente, ainda era considerado «embaraçoso» por quem, então, acreditava numa sociedade mais justa e inclusiva. Pelo menos, para a comunicação social escrita, era.
Contudo, nos comentários à, então, notícia publicados das redes sociais, não tardaram os insultos às mulheres a quem, tratadas de ladras para baixo, rapidamente trataram de desumanizar, arredando-as de qualquer pingo de dignidade humana. Exercício que, volvida uma década, por cá, resulta no que agora indigna uns poucos, aflige uns tantos e, segundo o governo da nação, qual adeptos do PSV Eindhoven em Madrid em 2016, mesmo que não caia bem a muitos, sempre satisfará a alguns, incluindo o próprio: a Prestação Social Única tal como no-la apresentam. Nesta execrável proposta, os pobres são tratados como escumalha a quem, segundo quem nos governa, importa agora morigerar.
Talvez não nos faça mal recordar que a ideia da Prestação Social Única nasceu da intenção de redignificar todos os desvalidos da vida. No entanto, acaba de ser transformada na cerca que inevitavelmente lhes vedará o acesso à cidadania plena, ferindo de morte a democracia tal como a temos vivido até aqui. Democracia sem liberdade de escolha não existe, se começarmos a retirá-la aos que, por pobreza, consideramos indignos, rapidamente começaremos a retirá-la a quem bem nos apetecer até, finalmente, chegarmos a nós próprios.
É no que dá “governar” para a salganhada dos algoritmos das redes sociais digitais em que os acéfalos desocupados, muitos deles beneficiários das atuais prestações sociais a quem começaram por convencer que a culpa da sua situação era dos políticos corruptos, dos imigrantes e dos outros pobres como eles, gostam de se envolver. É no que dá quando, em vez de se elegerem elites, se elegem arrivistas que só estão interessados no poder pelo poder e não na dignidade humana de quem os elegeu ou os ajudou a eleger. É no que dá substituir os princípios cristãos pelos da economia, fama e poder, sem deixar de bater no peito frente a um crucifixo que deixou de ser interpretado para ser usado como propaganda pelos que dele indevidamente se apropriam. É no que dá o voyeurismo de quem se delicia com a desgraça alheia para não pensar na própria. É no que dá desfrutar do conforto da democracia como se não houvesse amanhã. Agora, restar-nos-á aprender a lidar com o amanhã, negro, que não soubemos evitar até que o consigamos reconstruir. Se para tal tivermos engenho e arte, claro.

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Fidélia Pissarra

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