Opinião de Fidélia Pissarra: O valor das palavras

Escrito por Fidélia Pissarra

Sabemos hoje que a semântica não se resume ao estudo da linguagem como mero instrumento de expressão dos nossos pensamentos, mas que também se Interessa pela influência especial com que os molda e pré-determina, dirigindo-os para visões específicas. O que, malgrado a desfeita que sinto que me fazem, por o terem feito antes de mim, significa que para alguma coisa terá servido a preocupação com o significado, com o emprego e o sentido das palavras, de gregos e romanos que, já na antiguidade, reparavam que a aceção vulgar das palavras, na sua relação com as coisas, muda de acordo com as conveniências dos homens e se interessavam pelas mudanças semânticas, enquanto reflexo de mudança na mentalidade pública.
«A audácia temerária veio a ser considerada como corajosa lealdade a um partido, a hesitação prudente como uma refinada covardia, a moderação como um disfarce para a fraqueza feminil, e ser sábio em todas as coisas como não fazer nada em coisa alguma», já dizia Tucídides na “Guerra do Peloponeso”. «Mas, na verdade, desde há muito que perdemos os nomes verdadeiros para as coisas. É precisamente porque à dissipação dos bens dos outros se chama generosidade, e à temeridade no erro, coragem, que a república está reduzida a esta situação aflitiva», acrescentava Salústio no capítulo na “Conjuração de Catilina”.
Não fora por isso, muito provavelmente, dar-me-ia agora para achar que tinha descoberto a pólvora, quando me pusesse para aqui a apreciar as marcas do atual discurso governativo: o que nos adversários políticos consideram marcas ideológicas, neles são reformas; o que nos adversários políticos é imobilismo, neles é trabalho. Ou seja, por considerarem que ideologia, depois de muito depreciada, por eles próprios e pelos seus novos amigos, é uma palavra má e reforma, depois de muito valorizada, também pelos próprios e pelos seus novos amigos, é uma palavra boa, substituem uma pela outra e, não fosse pelas inusitadas consequências, considerariam estar a fazer um figurão.
Já que, demarcando-se de qualquer ideologia – como se, em democracia, os governos pudessem ser despolitizados – talvez por já não considerarem a palavra política suficientemente boa, assumem-se como “reformistas”.
O que, à luz da teoria de Saussure, que comparava a língua a um jogo de xadrez onde nenhuma unidade pode ser acrescentada, retirada ou deslocada, sem alterar o sistema completo de relações no tabuleiro, não deixa de ser preocupante. Porquanto, como muito bem sabemos, a base da democracia são os partidos políticos e a base dos partidos políticos é a ideologia, concreta e delimitada, pela qual se regem. Pretender alterar isso será pretender alterar o regime democrático e, uma vez que o bom deste reformismo, que agora dão em querer impingir-nos, parece muito mais concreto do que delimitado, estendendo-se a tudo e mais alguma coisa, o melhor que teremos a fazer, uma vez que esta nova não bandeira governativa, mais parece uma intenção velada de alterar o próprio sistema democrático, do que uma vontade de o preservar, será exigir que a palavra inicial seja reposta.
Seja como for, a menos que já tanto nos dê como deu, bem podemos preocupar-nos com os novos significados das palavras com que nos tentam moldar e pré-determinar os pensamentos, dirigindo-os para visões específicas que não sufragámos e, com toda a certeza, não desejamos.

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Fidélia Pissarra

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