Leio uma notícia sobre a selecção masculina de futebol do Iraque que disputa o Mundial FIFA e percebo o problema da selecção portuguesa. Diz a notícias que vários jogadores iraquianos, frutos da diáspora de guerra, não falam árabe, apenas inglês. O seleccionador, para ultrapassar esse problema, montou a equipa da seguinte maneira: jogam à direita os que falam árabe, à esquerda, os que falam inglês, e no centro os que sejam bilingues. Mais do que se adaptarem às posições no campo, pelo menos entendem-se entre eles.
Ora, isto leva-nos ao problema da selecção de Portugal. Roberto Martinez é um bom funcionário público, que faz as suas funções sem brilho, mas com brio. É por isso que gosto de lhe chamar “senhor Martins”, porque me soa exactamente a bom funcionário. Uma das competências do bom funcionário é aprender as funções com diligência. E o “senhor Martins” aprendeu diligentemente a falar bom português. (Sim, bom português. A gramática é boa, o vocabulário, também. Não me chateiem com o “sotaque”, que hoje não tenho paciência para parvoíces.)
É este, o bom português do “senhor Martins”, o problema da selecção portuguesa. Ao contrário da selecção do Iraque, onde os jogadores da direita não entendem os da esquerda e vice-versa (isso em Portugal acontece no parlamento, não é no campo de futebol), os jogadores portugueses entendem-se bem uns aos outros. O problema é que não têm desculpa de não entender o “senhor Martins”. Se o “senhor Martins” falasse apenas espanhol – ou melhor ainda, apenas catalão – os jogadores portugueses teriam a boa desculpa de fazer em campo o que sabem fazer – jogar bem à bola, como fazem lá nos PSG’s e nos Cities onde ganham títulos. Nem sequer podem decidir fazer coisas diferentes dentro do campo, porque em campo está sempre o velho patrão do “senhor Martins”, conhecido por nomes como CR7 ou “o nosso capitão”.
Talvez se falasse em catalão, quando o “senhor Martins” dissesse inevitavelmente ao seu chefinho, “Cristiano, avui tu jugues”, os outros jogadores percebessem, “olha, o mister está a dizer ao capitão que evite jogar. Gonçalo, hoje és tu o ponta-de-lança”.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


