Economia Especial Ranking Maiores Empresas

«A falta de mão de obra qualificada é o fator mais penalizante para o crescimento da Coficab na Guarda»

Escrito por Jornal O Interior

Entrevista a João Cardoso, diretor-geral da Coficab Portugal, no âmbito do especial de O INTERIOR dedicado às maiores empresas dos distritos da Guarda e Castelo Branco

P – Qual a reação da empresa a este destaque – a liderança do ranking das maiores empresas na região?
R – Nenhuma reação especial. Nós apenas fazemos o nosso trabalho o melhor que podemos, trabalhando em equipa e dando todos o nosso máximo. Felizmente os resultados têm aparecido de uma forma natural. Como guardense, desejaria sinceramente que a diferença a nível de faturação e postos de trabalho comparativamente a outras empresas não fosse tão grande, pois isso significaria que a economia local estaria em melhores condições e também significaria que não estaríamos tão dependentes de uma só empresa.

P – Qual a fórmula para a Coficab conseguir manter-se no topo durante todos estes anos?
R – Visão antecipada das tendências tecnológicas no setor automóvel e muita proximidade com os clientes e as suas aspirações, o que nos tem permitido estar sempre um passo à frente da concorrência. Isto são os dez por cento de inspiração. Depois, há muito trabalho em equipa, muito profissionalismo de todas as pessoas da Coficab e a todos os níveis, dando cada um o melhor de si mas sempre num contexto coletivo. Esta é a parte de 90 por cento de transpiração. É importante saber o que tem que ser feito e para onde devemos caminhar. Isso é o que eu faço (só 10 por cento). Mas o mais importante é ter por detrás de nós uma equipa fantástica de 650 pessoas que nos dão a segurança de saber que aquilo que queremos fazer vai mesmo ser feito! Tenho um orgulho enorme nos trabalhadores desta empresa, que contribuem não só para o sucesso da mesma na Guarda, mas também para que o grupo Coficab seja líder incontestado do mercado a nível mundial.

P – Com um volume de negócios de 234 milhões de euros e um crescimento de quase 7% comparativamente ao ano anterior (2017), qual foi o crescimento e os resultados de 2019? Mantiveram nível de crescimento?
R – Os resultados acompanharam o crescimento das vendas e isso é o que nos tem permitido crescer e investir permanentemente na inovação e modernização dos nossos processos. A Coficab Portugal já renovou por duas vezes a sua tecnologia – ou seja, na prática investimos em duas fábricas novas em Vale de Estrela – nos últimos 20 anos para nos mantermos competitivos. Não sendo um país de “baixo custo”, temos então apostado para a fábrica da Guarda em produtos de valor acrescentado mais elevado e em processos de fabrico mais complexos, o que nos dá um pouco mais de margem que os produtos “standard”.

P – A nova unidade já está em fase de instalação de equipamento na PLIE. Quando se prevê a sua entrada em funcionamento? E qual será o impacto sobre o crescimento da empresa na Guarda?
R – O nosso novo projeto COF DATA (a denominação legal será COF GR sendo GR o diminutivo de Guarda) já entrou em funcionamento, ainda que de forma limitada. Temos já cerca de 80 pessoas a trabalhar na nova unidade situada na PLIE. Como disse no lançamento do projeto, este é um desafio novo para a empresa com uma unidade cem por cento focada num nicho de produtos que ainda não produzíamos até agora em fábrica nenhuma. Estou confiante que terá o mesmo sucesso que todos os outros projetos que lançámos e se assim for chegaremos a cerca de 250 postos de trabalho nesta unidade.

P – Com a nova unidade na PLIE, quantas pessoas irão passar a trabalhar na Coficab Guarda?
R – Poderemos chegar até aos 750 trabalhadores num cenário moderadamente otimista.

P – Quais são as vantagens da empresa por estar instalada no interior?
R – Absolutamente nenhumas. Só dificuldades acrescidas.

P – E quais são os constrangimentos mais relevantes por estar localizada na Guarda?
R – Neste momento o fator mais penalizante é, sem dúvida nenhuma, a falta de mão de obra qualificada. Recebo semanalmente dezenas de pedidos de emprego e a empresa na Guarda necessita de pessoas. Mas, infelizmente quem necessita de emprego não corresponde minimamente ao perfil das necessidades da nossa empresa, principalmente quando falamos de qualificações. Esta situação deveria ser objeto de uma reflexão profunda do que andamos a fazer, principalmente a nível do ensino secundário. Os programas atuais parecem ser desenhados propositadamente para afastar os jovens das áreas científicas, com um nível de dificuldade extremamente alto nalgumas disciplinas, como a Matemática, e que leva ao afastamento dos alunos dessa área. Estamos a cometer um erro ENORME a nível de ensino, confundindo grau de dificuldade com exigência e rigor. Não é por incluirmos matérias próprias do 10ª ano no 8º ano que estamos a formar melhor os jovens. Pelo contrário, estamos a afastá-los de uma via que faz falta ao país.
O que deveria ser feito era adequar a matéria do 8º ano a alunos do 8º ano e depois ser exigente na sua aprendizagem. Choca-me ver o meu filho estudar no 7º ano matéria de Matemática que eu próprio estudei no fim do 8º e até no 9º. Um grande erro está aqui a ser cometido, que, governo após governo, tem sido repetido. Rigor no ensino sim, dificuldade sem sentido e sem valor acrescentado prático absolutamente nenhum, por favor não.

P – E o futuro da Coficab na Guarda?
R – A Coficab na Guarda é mais que um local de produção. É o local por excelência de inovação a nível do grupo Coficab e existe uma relação simbiótica de dependência entre estas entidades, o grupo Coficab e a fábrica da Guarda. Um não consegue viver sem o outro. O grupo necessita da criatividade, capacidade de inovação e liderança tecnológica da fábrica da Guarda. A unidade da Guarda necessita do poder de “lobbying” e da presença global do grupo Coficab para utilizar de forma efetiva o seu potencial. O destino destas duas entidades está assim intimamente ligado. Quando uma estiver bem a outra também está, e se algum dia uma delas começar a ter dificuldades, a outra será sem dúvida arrastada para as mesmas. Como o futuro é demasiado imprevisível, vamos aproveitando o presente. E o presente, para já, continua promissor.

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