Cara a Cara

«Se a Barragem da Assedasse não for feita, mais ano menos ano vamos ficar sem água para beber»

Escrito por ointerior

P – A APAL – Águas Públicas em Altitude gere o abastecimento e saneamento nos concelhos da Guarda, Manteigas, Celorico da Beira e Sabugal, como nasceu esta empresa intermunicipal?
R – Este projeto construído pelos quatro autarcas surgiu da necessidade de melhor organizar este setor que, ao longo dos anos, tem vindo a ser muito profissionalizado. Não pretendemos privatizar, serei sempre contra porque a água é um bem essencial. As águas públicas eram o caminho que a Guarda já devia ter seguido, uma vez que estava bem organizado, bem sustentado financeiramente e era tempo de agregar outros concelhos. Houve um grande desinvestimento no setor e os quatro autarcas tomamos uma decisão. Fizemos o estudo e chegámos à APAL para podermos melhorar o sistema, para fazer mais investimentos, reduzir as perdas e as afluências indevidas de águas residuais nas redes de águas pluviais. São estes os três grandes desafios da APAL e, para os próximos cinco anos, temos um plano de investimento nos quatro municípios de cerca de 20 milhões de euros. Trata-se de substituir as redes mais antigas de fibrocimento, manutenção, conservação diária e, principalmente na Guarda e no Sabugal, ainda temos alguns aglomerados populacionais sem abastecimento de água da rede pública ou mesmo saneamento. É um problema que estamos a resolver gradualmente. Já vai começar, através de fundos comunitários, em Vila Fernando, num investimento de 200 mil euros para a rede de saneamento da Quinta de Baixo.

P – Quando é que todas as pessoas do concelho vão ter saneamento básico e água canalizada em casa?
R – Até ao final do mandato a água canalizada é um objetivo que está ao nosso alcance de poder resolver. Falamos dos aglomerados populacionais, não em povoações dispersas. Falta-nos tratar duas anexas na freguesia de João Antão, também no Vale da Amezendinha e uma outra aldeia. Em quintas isoladas é manifestamente impossível ou utópico. Quanto ao saneamento, queremos dar um avanço muito grande neste mandato, mas se calhar apenas no próximo é que será possível ter rede de saneamento em todas as aldeias, porque não conseguimos recuperar o tempo perdido. Mas, repito, em aglomerados dispersos é impossível, porque não há financiamento para tudo isso.

P – O aumento da água na Guarda deixou todos preocupados. Qual é a justificação para ser tão caro?
R – A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos obriga os municípios a uma coisa: os sistemas têm de se pagar a si próprios. No caso da Guarda, os tarifários já estão equilibrados face à receita e despesa, mas há municípios com um plano quinquenal de adaptação dos tarifários e até há municípios da APAL que aumentaram muito mais o preço da água porque os tarifários têm que ser equilibrados. Aqui ao lado, em Belmonte, acontece igual, tal como, de uma forma transversal, está a acontecer em todo o país. Aprovámos recentemente o plano do corte “das gorduras” que pretende reduzir as afluências indevidas de águas residuais às águas pluviais e as perdas, que são elevadas. Chegaremos ao ponto em que, para reduzir mais, teremos de fazer investimentos muito superiores, mas temos de chegar lá para que tenhamos um sistema equilibrado. Queremos ter um sistema sustentável. Mas, no caso da Guarda, a fatura da água não vai aumentar 10 por cento. Para quem aderir ao sistema de bio resíduos aumenta apenas 1,2/1,4 por cento. É um incentivo assumido pelo município. Na fatura há água, águas residuais e resíduos. Quem aderir ao sistema de bio resíduos reduz drasticamente a fatura.

P – A APAL é uma empresa formada por quatro municípios, também está prevista a entrada de Fornos de Algodres. Quando?
R – Sim, estamos a elaborar estudos para que Fornos de Algodres possa entrar. Há aqui um espírito solidário, a Guarda, que está na vanguarda no que deve ser a gestão de água e do saneamento, deve contribuir para que os concelhos vizinhos também possam servir melhor os seus cidadãos. É este o caminho da unidade entre os vários municípios. Os recursos técnicos estão consolidados na APAL, mas teremos os operacionais em cada território e Fornos não será exceção. Temos que ter lá os operacionais para poder entrar nas redes, seja de água ou de saneamento, porque a parte técnica já é otimizada, perfeitamente consolidada ou quase consolidada.

P – O Plano de Revitalização da Serra da Estrela está parado e também tem importância para as águas da nossa região.
R – Quando há problemas de água não se tratam a jusante, mas sim a montante. Enquanto estes não estiverem resolvidos, haverá partes do país que vão continuar a ter cheias. Temos prevista a barragem do planalto de Videmonte (Assedasse). A cascata hidráulica do rio Mondego tem que ser construída não só para a regulação dos caudais no baixo Mondego, mas também para a sustentabilidade da vida humana. Guarda, Celorico da Beira, parte de Pinhel, Fornos de Algodres no Verão e duas freguesias do concelho de Gouveia são abastecidos pela barragem do Caldeirão. No final de 2022 estávamos quase sem água, tínhamos água para dois meses. Tivemos dois anos de muita chuva, e poderemos vir a ter dois anos de muita seca e a água acaba no Caldeirão. Já fizemos os estudos e entregámos às tutelas, pelo que se isto não for feito, mais ano menos ano, vamos ficar sem água para beber. A barragem de Girabolhos vai avançar, mas a de Assedasse tem de avançar também, sendo que são precisos vários milhões de euros para se fazerem os estudos necessários e a obra.

CARA A CARA entrevista a Sérgio Costa, Presidente do CA da APAL

 

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