1. Após o acórdão no processo “Face Oculta”, que condenou em primeira instância os principais arguidos, foi tornado público o conteúdo do espólio adquirido por aqueles, por via da sua actividade criminosa. Bens esses que deverão entregar ao Estado. Do extenso acervo constam vários veículos Mercedes, canetas “Dupont” e “Mont Blanc”, passando por um centro de mesa no valor de 1.500 euros, um decantador que valia 700 euros e dois relógios, avaliados em 6.300 euros. Antes de mais, devo dizer que a notícia em si não surpreende. Os bens apreendidos constituem o tipo de coisas que gangsters saloios com dinheiro adquirem logo possam. Agora vejamos a coisa por outro prisma. Pensem em Vara, Isaltino, Curto, Fátima Felgueiras, Monterroso, só para dar exemplos mais conhecidos. Todos eles beneficiários líquidos da democracia. Tal como noutro plano, e noutra conversa, Amorim, Belmiro, Cavaco e Jardim. Os primeiros têm em comum a sua origem modesta. Virem da província e crescerem à sombra dos partidos bem ancorados no poder local. Aí criaram o núcleo duro que os irá acompanhar e lançaram os ganchos de abordagem para uma auspiciosa carreira. Sempre com a bênção dos directórios nacionais, bem entendido. Podemos encontrar neste padrão a razão para, ao longo da carreira, a sua noção de exercício de poder ser decalcada do compadrio e não ultrapassar a dimensão paroquial. Por outro lado, as diferenças entre si têm a ver, não com o tipo ou grau de ambição, mas com o respectivo grau de satisfação. Por exemplo, enquanto Curto ia “fazendo pela vida” sem pudor, Vara queria as luzes da ribalta, estar na confluência exacta onde o poder político e o dinheiro desaguam. Ganhando pontos na notoriedade que abre todas as portas. Enquanto Fátima Felgueiras abanava a árvore das patacas e mexia os cordelinhos para sair dos apertos, Isaltino resistiu até ao fim. Sabendo bem que o sufrágio “popular” limparia a sua caderneta manchada. Todos se aproveitaram de um sistema que, desde cedo, perceberam as limitações e as debilidades do funcionamento. Ou melhor, transformaram as virtudes de um modelo de organização da sociedade nos seus piores inimigos. Possuídos pelos seus apetites, pela ânsia de orgiastas, viam na democracia simplesmente uma janela de oportunidades, débil e manipulável. Um sistema que facilmente poriam ao seu serviço. Aprenderam muito depressa que a necessidade do compromisso, inseparável das responsabilidades públicas, pode ser substituída, com apreciável vantagem, pelo acordo obscuro, pelo negócio não esclarecido. E que os benefícios desse tráfico, subtraídas ao controlo político e jurisdicional, criam cúmplices e não parceiros. Mas é a audácia que os distingue dos demais delinquentes. Qual é o primeiro passo dado por dois meliantes que furtam uma carteira com um cartão de crédito? Pois é, vão a correr comprar bens de consumo (telemóveis, TV, portáteis, etc) até ao limite do cartão. As diferenças aparentes entre eles e os arguidos do caso “Face Oculta” são muitas. Mas uma análise profunda só descobre uma: enquanto os “pequeninos” usam com sofreguidão o produto do seu crime, o peixe graúdo distribui cartões de crédito pelos cúmplices. Para que silenciem o escrúpulo e adornem o vício. Mas, sobretudo, para que gastem o dinheiro que o Estado, ou seja, todos nós, acabou de perder. Tudo bons rapazes.
2. A Ministra da Justiça, em conferência de imprensa, veio pedir desculpa pela paralisação que infligiu na sua áurea, acrescentando que se trata de meros transtornos e rejeitando o caos. O caso obriga à colocação de três simples questões: a) A questão semântica. Em linhas gerais, podemos dizer que as democracias modernas glorificaram o sorriso, a velocidade e a ocultação. A ocultação faz-se, na maioria das vezes, apagando as palavras que descrevem realidades com que não se sabe lidar. Originando uma coisa que dá pelo nome de “politicamente correcto”. Um bom governante, nas democracias modernas, será aquele que, entre outros atributos, resiste, com glamour e determinação, à ocultação. b) A questão hermenêutica. Desde 1 de Setembro, o quotidiano da Justiça em Portugal é uma paisagem caótica. E sem um pingo da beleza estonteante do caos. Agora, ponhamos de parte as questões crónicas da Justiça. Este é, sem dúvida, um estado de excepção. Todavia, negar o caos e substituí-lo por um placebo “transtorno”, requer a força de Hércules, o génio de Alcibíades e a intuição de Ulisses. Muito mais do que a desfaçatez inconsequente, ou os expedientes evasivos, destinados a impedir “males maiores”. Afinal, manobras rotineiras de um político medíocre. O séc. XX teve o seu momento maior quando descobriu que a realidade é caótica. E que isso, em vez de causar transtornos, parece aliviar-nos deles. c) A questão higiénica. O maior transtorno para a Justiça em Portugal é, neste momento, a respectiva Ministra. Que assumiu, definitivamente, o papel de Dr. Pangloss, nesta embrulhada que criou. Alivie-nos e saia, Sra. Dra!…
3. Quando me disponho a assistir a um espectáculo musical ou teatral, é como se estabelecesse um compromisso. A mesma liberdade que me leva também me traz. Ou seja, tudo funciona na base do consentimento. Porém, mesmo não sucumbindo diante de juízos severos, apressados e levianos, há um odor que detecto à distância: Trata-se do amadorismo pretensioso em trajes provincianos. Uma combinação letal, que nem sequer permite uma avaliação sobre o mérito/qualidade do que se está a assistir. Não! Trata-se de uma piada de mau gosto, que vende gato por lebre, ludibria a inteligência, assegura uma paz social fundada na “aurea mediocritas”…
Por: António Godinho Gil
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


