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Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena! “Mar português” in Mensagem de Fernando Pessoa

A nomeação dos mordomos da festa, é feita sem prévia comunicação aos nomeados…este facto deixou-me deveras desagradado, até porque, nesse ano, nem na festa estive, e vim a saber da nomeação por outras pessoas. O que é facto é que uma das incumbências dos mordomos cessantes é nomear os novos. E como é evidente lá tivemos, agora, de pensar, verificar se nenhum dos potenciais teria sido nos anos anteriores, mais próximos, e como não gostei de ser nomeado sem ter sido contactado previamente, estabeleci os contactos. Devo dizer que vou no quarto, e ainda nenhum aceitou…Percebi porque constava duma acta, do meio do Século passado, que os mordomos seriam escolhidos e, se não aceitassem, pagariam uma multa.

As festas anuais e de origem ancestral, nas aldeias, são, sem duvida alguma, momentos altos dessa comunidade, afirmação da sua identidade e diferenciação, exaltação do colectivo, pela mobilização, pelo reencontro, pela renovação da tradição, pelo bulício na preparação e vivência, pela alegria, pela amizade, em síntese, fortalecem a auto estima dessa mesma comunidade. A prova disso está na forma como as pessoas se envolviam, nesse acto colectivo nos tempos em que a expressão festa, porque única, tinha um outro significado, que não o vazio que hoje carrega…cedendo como oferta as melhores peças do porco, colocadas bem lá no fundo da salgadeira, para que em Maio fossem entregues ao santo padroeiro.

Existe alguma contradição no que disse e no que parece acontecer, nomeadamente com as gerações mais novas, preocupadas mais com as suas vivências, com os seus estudos, mestrados e doutoramentos, que gostam muito da aldeia, mas um gosto que se confunde mais com o consumir no pouco tempo que lá estamos, e não tanto para viver nos encantos ou desencantos diários, para partilhar nas dificuldades e ajudar a ultrapassá-las, para contribuir com opiniões válidas, para que essa aldeia, sem deixar de o ser, reflicta muito daquilo que nós gostamos que seja. Regista-se essa diferença, por vezes enorme, entre o …acho bem que se faça…e o vamos fazer, a última claramente mais envolvente e participada.

Não faz pois, muito sentido, que as sucessivas comissões se demitam da responsabilidade de contactar previamente os futuros mordomos e fará muito menos sentido que estes, em algumas situações, também se demitam da responsabilidade para com o colectivo.

Em abono da verdade, àquela minha revolta inicial, seguiu-se um período de mentalização de que mais uma vez deveria ser solidário, trabalhar pela “minha” aldeia, nesta certeza, de que ainda tenho aldeia, da qual me quero continuar a orgulhar. A partir desse momento tudo se tornou mais fácil. À atitude de revolta seguiu uma entrega total, com limites é evidente, dentro dos limites, diferentes, que todos temos. As tarefas foram distribuídas, as etapas foram passando e o resultado está próximo. É claro que pelo meio temos de deixar um pouco de nós, do que pensamos, como entendemos a tarefa que nos é conferida, como queremos fazer passar para as gerações futuras sem menosprezar o que se tem feito. Partilhei tarefas, senti um grande envolvimento da comunidade, com incidência dos que, quando se quer fazer algo, que pensamos ser para melhor, estão sempre lá…cimentei a ideia de festa, expus e ouvi opiniões, partilhei ideias.

…valeu a pena!

É a Festa da Santa Cruz! A festa da devoção, das procissões, das merendas, dos bailaricos, das arrematações, dos grilos, das romarias a pé e, nas carreiras da Joalto, das boas vindas ao sol e à Primavera.

A festa de Aldeia do Bispo, mas também, a festa das aldeias vizinhas, da cidade da Guarda, durante tantos anos associada ao feriado do 3 de Maio. A partir de 1950 passaria a ser festejada, sempre, no primeiro domingo de Maio, por coincidência, também o Dia da Mãe!

Ponto de encontro, de gerações sucessivas de gente que gosta desta terra, tantas vezes fria e madrasta, mas sempre de braços abertos para o sol e amigos. Gente presente e, gente, que com o coração apertado, tanto gostaria de estar presente.

Cumpre-se mais uma vez a tradição, que queremos renovada em cada ano, por nós, em memória dos nossos antepassados, e pelo futuro.

Por: Aires Almeida

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