Se estamos no Verão e não temos piscina, nem vivemos perto da praia (que é a minha situação), uma opção bastante compensadora é ver um filme de Esther Williams. Certamente que os seus musicais aquáticos, hoje clássicos maravilhosamente “kitsch”, não agradam a toda a gente. Obviamente também que um “Bathing Beauty” não é, nem nunca será, venerado como um “Vertigo” ou um “Casablanca”.
Todavia, isso não significa que os “aqua-musicals” não tenham o seu valor, principalmente para aqueles amantes nostálgicos de musicais coloridos de uma época em que constituíam o género mais popular. Não se deve ser arrogante ao ponto de não se ver um filme de Esther só por não ser um “must-see”. Nem se deve pensar na questão baixa/alta cultura em termos de “por cima/por baixo” mas sim “lado a lado”. A verdade é que Esther, conhecida como “Million Dollar Mermaid” (nome de um dos seus filmes), foi a única sereia de Hollywood, não tendo antecessores nem sucessores. Foi única no cinema e, com ela, foi criado esse subgénero de misturar música e água. Daí o meu respeito.
Esther era, antes de enveredar pelo cinema, uma nadadora de alta competição prestes a participar nas Olimpíadas de 1940 que, devido à eclosão da 2ª Guerra Mundial, foram canceladas. Mesmo assim, o seu talento não passou despercebido à MGM, que ansiava por uma estrela desportiva que fizesse frente à patinadora Sonja Henie (da Fox). Contrato feito, a MGM não perdeu tempo em construir uma grande piscina para que a estrela pudesse elaborar aqueles fabulosos números aquáticos. Os seus musicais (realizados nos anos 40 e início dos anos 50) foram, na sua maioria, sucessos comerciais e Esther tornou-se, por direito próprio, uma das estrelas mais populares da sua época. O público não podia resistir aos seus filmes escapistas e ao seu sorriso sedutor enquanto nadava envolvida naqueles maiôs vintage. Graças a ela, a natação sincronizada tornou-se popular.
Apesar do seu talento dentro de água, Esther não era a mais talentosa das atrizes. Fanny Brice disse uma verdade irredutível de que «molhada, ela [Esther] é uma estrela, mas seca nem pensar». De qualquer modo, o seu encanto, o seu nadar delicado e glamoroso ultrapassavam as suas limitações como atriz.
Mais tarde, no final dos anos 50, quando os seus filmes deixaram de agradar ao grande público, a atriz tentou a carreira dramática que, como seria de esperar, não correu bem. E que importa? Esther era inteligente. Virou mulher de negócios e passou, até 2013, ano em que morreu, a vender fatos de banho ao estilo vintage, bem como piscinas.
Enfim, Esther foi única, maravilhosamente única dentro de água, contribuindo para a magia e a singularidade do musical MGM. Toda uma estrela aquática.
Miguel Moreira


